Gorete, uma senhora de 75 anos, chegou ao pronto-socorro acompanhada por sua neta, Amélia, que relatou ter observado na avó comportamentos incomuns iniciados nos últimos dias, por exemplo, a avó vinha confundindo sua neta com sua filha já falecida. Além disso, falava coisas totalmente sem sentido, tendo anunciado que Preciso esconder os pássaros da janela antes que eles roubem as minhas joias. Amélia completou que a avó estava muito agitada, irritada e que as vezes parecia muito apavorada, confusa e desorientada, batia as canelas nos móveis e não parecia sentir coisa alguma. Esses sintomas pareciam piorar ao final do dia. Além disso, a neta de Gorete informou que a avó possui histórico de insuficiência renal crônica. O diagnóstico mais provável para o quadro clínico neurocognitivo descrito é
- A)doença de Alzheimer.
Errada: a doença de Alzheimer tem início lento e progressivo, não um começo agudo com flutuação diária e desorientação intensa.
- B)depressão maior com pseudodemência.
Errada: a pseudodemência depressiva pode simular déficit cognitivo, mas não costuma causar desorientação aguda, alucinações/confusão e oscilação do nível de consciência.
- C)esquizofrenia de início tardio.
Errada: esquizofrenia de início tardio é incomum e não explica bem um quadro súbito em idosa com provável gatilho clínico/metabólico.
- D)transtorno de ansiedade generalizada.
Errada: transtorno de ansiedade generalizada pode gerar apreensão e irritabilidade, mas não esse rebaixamento/confusão do estado mental com pensamento desorganizado.
- E)delirium.
Certa: delirium cursa com início agudo, flutuação dos sintomas, desatenção, desorientação, agitação e pode ser precipitado por doença clínica, como disfunção renal.
Gabarito: E
O quadro descreve um início agudo, com piora em poucos dias, flutuação dos sintomas ao longo do dia e muita desorganização do pensamento. Isso já acende a luz amarela do delirium, que é uma síndrome neuropsiquiátrica comum em idosos e costuma ser provocada por doença clínica, infecção, medicamentos, desidratação ou alterações metabólicas. Aqui, a insuficiência renal crônica ajuda a pensar em causas orgânicas e metabólicas, o que combina muito com esse diagnóstico. No delirium, a pessoa pode ficar confusa, desorientada, agitada ou até sonolenta, com percepção alterada e falas sem nexo. Também é bem típico haver piora no fim do dia, o famoso padrão vespertino, e os sintomas mudarem de intensidade ao longo das horas. A descrição de confundir a neta com a filha falecida e falar coisas absurdas mostra alteração global da atenção e do conteúdo do pensamento, não um transtorno psiquiátrico primário estável. Já doenças como Alzheimer costumam ter início insidioso e progressivo, não em poucos dias. Depressão com pseudodemência pode dar lentificação e queixas cognitivas, mas não costuma explicar essa oscilação abrupta do estado mental e a desorientação tão marcada. Esquizofrenia de início tardio é bem menos provável porque não começa assim, de forma súbita e ligada a um quadro clínico geral. Na prática, em psiquiatria geriátrica, delirium é diagnóstico de urgência: primeiro você pensa na causa orgânica e trata o gatilho, depois organiza o resto. É a clássica situação em que o cérebro parece ter entrado em modo “rádio fora de sintonia”.