O assunto personalidade e suas alterações é um dos mais difíceis e polêmicos de toda a psicopatologia (...) Personalidade é o conjunto integrado de traços psíquicos, consistindo no total das características individuais, em sua relação com o meio, conjugando tendências inatas e experiências adquiridas no curso de sua existência. Dalgalarrondo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3ª edição. Artmed: Porto Alegre, 2019. Sobre a psicopatia, avalie as afirmativas a seguir. I. Para Kurt Schneider, as personalidades anormais relevantes para a psiquiatria seriam as chamadas personalidades psicopáticas, que incluiriam as pessoas cuja anormalidade de personalidade lhes faria sofrer e causaria sofrimento à sociedade (as pessoas que com elas convivem); para Schneider, as personalidades anormais, inclusive as psicopáticas, não são doenças mentais (que para ele deveriam ter substrato corporal conhecido ou suposto); são apenas variações de normas populacionais; essa ideia permeia os conceitos atuais de transtorno de personalidade. II. O Transtorno de Personalidade Antissocial é a forma de se compreender “sociopatias”, “psicopatias”, sendo critérios para o diagnóstico, conforme o DSM-5: i. fracasso em ajustarse às normas sociais relativas a comportamentos legais; ii. tendência à falsidade, a mentir repetidamente, a falsificar nomes, documentos, trapacear para ganho pessoal ou por prazer; iii. extremo autocontrole, planejando cuidadosamente suas ações futuras; iv. ausência de remorso, verificada pela indiferença ou racionalização em relação a ter ferido, maltratado, prejudicado gravemente ou roubado outras pessoas. Assim, verifica-se a incapacidade de experimentar culpa e de aprender com a experiência, particularmente com a punição. III. O tratamento do transtorno de personalidade antissocial normalmente é bem-sucedido, com psicoterapias (em especial a psicanalítica) e medidas de reabilitação social. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa reúne apenas a afirmativa I, que descreve a noção de Kurt Schneider de “personalidades psicopáticas” como variações anormais da personalidade, relevantes para a psiquiatria, mas não como doenças mentais em sentido estrito. Essa formulação está de acordo com a tradição psicopatológica schneideriana: o foco está no desvio da norma e no impacto sobre o próprio sujeito e sobre o convívio social, ideia que influenciou o conceito moderno de transtorno de personalidade. Como as afirmativas II e III trazem erros conceituais importantes, esta é a combinação correta.
- B)I e II, apenas.
Aqui se afirma que as afirmativas I e II estariam corretas. Embora a I esteja bem formulada, a II erra ao dizer que o transtorno de personalidade antissocial envolve “extremo autocontrole” e planejamento cuidadoso, porque o DSM-5 aponta o oposto: impulsividade, fracasso em planejar e desprezo por normas e direitos alheios. O núcleo do diagnóstico inclui também engano, irresponsabilidade e ausência de remorso, então a presença desse item invertido invalida a alternativa.
- C)I e III, apenas.
Esta opção sustenta que I e III seriam verdadeiras. A primeira está correta, mas a terceira contraria a prática clínica e a literatura: o transtorno de personalidade antissocial costuma ter tratamento difícil, adesão baixa e resposta limitada, sem que psicoterapia psicanalítica seja considerada abordagem normalmente bem-sucedida. Medidas de manejo e reabilitação podem ser úteis, mas não justificam afirmar sucesso terapêutico habitual.
- D)II e III, apenas.
A alternativa propõe que apenas II e III estariam corretas. O problema é que a II contém um erro central no critério diagnóstico ao falar em extremo autocontrole e planejamento cuidadoso, quando o DSM-5 descreve impulsividade e falha em planejar. Além disso, a III também está errada ao sugerir boa resposta terapêutica; portanto, a combinação apresentada não se sustenta.
- E)I, II e III.
Aqui se afirma que as três afirmativas estariam corretas, mas isso não corresponde ao conteúdo clínico. A I está correta ao recuperar Schneider, porém a II distorce um dos critérios nucleares do transtorno antissocial e a III exagera a eficácia do tratamento, que em geral é limitada e com prognóstico reservado. Como duas das três proposições estão erradas, essa alternativa não pode ser aceita.
Gabarito: A
A questão mistura história da psicopatologia com critérios diagnósticos atuais. Kurt Schneider foi um autor clássico ao discutir as chamadas personalidades psicopáticas, isto é, formas de personalidade anormal que causam sofrimento ao próprio indivíduo e ao meio, mas que ele não considerava doenças mentais no sentido estrito. Para Schneider, eram variações da norma, e essa visão ajudou a moldar a ideia moderna de transtorno de personalidade, que não é tratada como psicose nem como doença orgânica. No DSM-5, o Transtorno de Personalidade Antissocial é a categoria usada para entender o que popularmente muita gente chama de psicopatia ou sociopatia. Os critérios incluem desrespeito por normas sociais, enganação, impulsividade, irritabilidade, irresponsabilidade e ausência de remorso. Repare no detalhe: não existe "extremo autocontrole" como critério, muito pelo contrário, o quadro costuma envolver pouca contenção e muita conduta impulsiva. A terceira afirmativa também escorrega feio. O transtorno de personalidade antissocial costuma ter resposta limitada a tratamento, e psicoterapia, especialmente a psicanalítica, não é descrita como normalmente bem-sucedida. Na prática, o manejo é difícil, com foco em controle de risco, comorbidades e medidas psicossociais, sem prometer milagre terapêutico. Por isso, apenas a afirmativa I está correta, e o gabarito A faz sentido. A banca cobra justamente essa diferença entre conceito clássico de personalidade anormal, critérios atuais do DSM e a realidade terapêutica, que é bem menos romântica do que o enunciado tenta sugerir.