Um paciente idoso em uso contínuo de omeprazol e antidepressivo tricíclico apresentou transtorno neurocognitivo, o que levou à solicitação de sua interdição. Diante dessa solicitação, o magistrado determinou a realização de avaliação psiquiátrica. Com base nas informações apresentadas, as duas medidas iniciais mais importantes que o perito médico deve adotar antes de começar a avaliação completa do estado mental do idoso são:
- A)realizar avaliação da atenção e da memória;
Errada, porque atenção e memória fazem parte da avaliação mental, mas não são as primeiras medidas antes de investigar causas reversíveis do rebaixamento cognitivo.
- B)realizar avaliação das funções executivas e da memória;
Errada, porque funções executivas e memória são importantes, mas a questão cobra a etapa inicial de triagem clínica e medicamentosa antes do exame completo.
- C)pedir endoscopia digestiva alta devido ao uso do omeprazol e avaliar as funções visuoespaciais;
Errada, porque endoscopia digestiva alta não é a medida inicial pertinente aqui; o foco deve ser na investigação de deficiência de B12 e de efeito anticolinérgico dos remédios.
- D)solicitar a dosagem de B12 e considerar a medicação com efeito anticolinérgico, já que ambas podem afetar o estado mental;
Certa, porque omeprazol pode se associar a deficiência de B12 e o antidepressivo tricíclico tem efeito anticolinérgico, ambos podendo alterar o estado mental do idoso.
- E)medir o quociente de inteligência verbal e não verbal, avaliando a linguagem na busca de afasias.
Errada, porque quociente de inteligência não é o exame inicial adequado para esse contexto pericial e não substitui a busca por causas clínicas e farmacológicas reversíveis.
Gabarito: D
Quando um idoso chega para avaliação pericial com suspeita de transtorno neurocognitivo, a primeira postura do perito não é sair aplicando testes como se estivesse em um concurso de memorização. Antes disso, você precisa pensar em causas potencialmente reversíveis ou agravantes do rebaixamento cognitivo. Em geriatria, isso é clássico: deficiência de vitamina B12, efeitos de medicamentos e outras condições clínicas podem imitar ou piorar demência. No caso, o uso contínuo de omeprazol chama atenção porque a redução da acidez gástrica pode prejudicar a absorção de B12 ao longo do tempo. Já o antidepressivo tricíclico tem forte efeito anticolinérgico, e remédio com carga anticolinérgica é quase um convite para confusão mental, lentificação e piora da atenção, especialmente em idosos. Por isso, as duas medidas iniciais mais importantes antes da avaliação completa do estado mental são justamente solicitar a dosagem de B12 e considerar a medicação com efeito anticolinérgico. Isso vem da boa prática pericial e da psiquiatria geriátrica: primeiro excluir ou reduzir fatores orgânicos e iatrogênicos que podem estar sabotando o quadro cognitivo. Depois, sim, você faz a análise psicopatológica com mais segurança. Em termos de perícia para interdição/curatela, a lógica é simples: o perito deve descrever capacidade, cronicidade, gravidade e possibilidade de reversibilidade do déficit, porque o juiz decide com base nesse conjunto. Se houver causa tratável, isso muda bastante o cenário funcional e jurídico do paciente.