Desde sua formatura em Medicina, há três meses, Cíntia, de 27 anos, tem frequentado a igreja católica, rezado o terço e se interessado por toda a cultura relacionada. Porém, ela nunca foi religiosa antes. Há cerca de 2 meses ela também tem afirmado aos mais íntimos que Nossa Senhora revelou a ela seu poder de curar as pessoas com a força do pensamento e assim ela é o Messias do terceiro milênio. Mas deve tomar cuidado pois as forças do mal irão agir para impedi-la em sua missão. Excluindo essas ideias imovíveis, o comportamento religioso e atitude mais suspicaz, Cíntia continua aparentemente a mesma pessoa: de poucos amigos, organizada, controlada, algo ansiosa (porém sem história prévia de transtornos mentais), muito inteligente e estudiosa. Seu sono e demais funções estão preservadas. Não apresenta alterações psicopatológicas do afeto, motivação ou forma/curso do pensamento. Sem evidências de transtornos neurológicos associados. O provável diagnóstico de Cíntia é
- A)esquizofrenia.
Errada, porque faltam sintomas típicos de esquizofrenia, como desorganização, alucinações relevantes, sintomas negativos ou prejuízo funcional importante.
- B)mania simples.
Errada, porque não há síndrome maníaca, já que não existe euforia, diminuição da necessidade de sono, pressão para falar ou aumento global de energia.
- C)transtorno delirante.
Certa, pois há delírio persistente e organizado, com preservação relativa do funcionamento e sem o quadro amplo de esquizofrenia.
- D)depressão psicótica.
Errada, porque não há humor deprimido nem sinais centrais de depressão maior com psicose.
- E)transtorno de personalidade Borderline.
Errada, porque transtorno de personalidade borderline não se define por delírios fixos, e sim por instabilidade afetiva, impulsividade e relações interpessoais intensas.
Gabarito: C
O caso descreve um quadro com delírios bem estruturados e persistentes, mas sem prejuízo global importante do funcionamento psíquico. Cíntia mantém sono, afeto, motivação e curso do pensamento preservados, além de seguir aparentemente organizada, inteligente e sem sinais de desorganização comportamental ou sintomas negativos. Isso aponta muito mais para transtorno delirante do que para esquizofrenia. No transtorno delirante, a pessoa pode ter uma vida relativamente preservada fora da ideia delirante central. O delírio costuma ser plausível em aparência, duradouro e fixo, e não vem acompanhado do “combo completo” de esquizofrenia, como alucinações marcantes, pensamento desorganizado, embotamento afetivo ou grande deterioração funcional. Aqui, a temática é claramente religiosa e grandiosa, com forte convicção de missão especial e ameaça de forças do mal. Na esquizofrenia, você esperaria mais do que uma crença delirante isolada: sintomas como alucinações, desorganização do pensamento, sintomas negativos ou prejuízo importante da vida social e ocupacional. Na mania, haveria elevação do humor, redução da necessidade de sono, aceleração do pensamento e aumento global de energia, o que não aparece no enunciado. Em depressão psicótica, o núcleo seria humor deprimido e sintomas vegetativos/psíquicos compatíveis, também ausentes. Então, o gabarito é transtorno delirante porque há um delírio não bizarro, persistente, bem sistematizado, com preservação relativa do restante do funcionamento mental. Em prova, pense assim: quando o delírio é o protagonista e o resto da mente segue “em cena”, a banca quer transtorno delirante.