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Psiquiatria · FGV · 2024

Questão comentada de Psiquiatria

À Joana D’Arc, a jovem camponesa de dezesseis anos, o Delfim francês confiou seu exército. Com vestes masculinas e estandarte na mão, a menina afirmava ouvir, nas vozes de São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia, as ordens para que guiasse a França rumo à libertação na sangrenta Guerra dos Cem Anos. A partir dos treze anos, Joana D'Arc vivenciou episódios frequentes de alucinações auditivas de conteúdo exultante ou positivo, que vinham “de fora” da sua cabeça. Estavam associadas a alucinações visuais elementares ou complexas (por exemplo, uma grande luz ou rostos humanos). Estas alucinações tinham início súbito, durando no máximo segundos ou minutos, e ocorriam quando ela estava sonolenta ou durante o sono, despertando-a. Algumas alucinações podiam ser desencadeadas por um estímulo auditivo. No mais, Joana D’Arc mostrava pessoa de humor alegre e uma mente organizada. Fonte: Nicastro, N., & Picard, F. (2016). doi:10.1016/j.yebeh.2015.12.043 Em consonância com a nosologia psiquiátrica contemporânea, e em conformidade com o raciocínio clínico elaborado na referência supracitada, a história acima é melhor explicada pela seguinte condição clínica:

Gabarito: C

A questão descreve algo muito importante: alucinações auditivas e visuais que surgem de modo súbito, duram segundos ou poucos minutos, acontecem no sono ou ao despertar e podem ser provocadas por estímulo auditivo. Esse padrão é bem mais compatível com fenômeno neurológico do que com um transtorno psicótico primário. Em psiquiatria, a esquizofrenia costuma trazer sintomas mais persistentes, com prejuízo do pensamento, da organização e do funcionamento global, o que não aparece no caso, já que Joana D'Arc permanecia com humor alegre e mente organizada. O ponto-chave é que alucinações breves, estereotipadas, com relação ao estado de sono e possível gatilho sensorial lembram crises epilépticas com manifestações psíquicas ou sensitivas, especialmente crises focais. Em outras palavras: quando a alucinação parece "ligada ao cérebro elétrico" e não a um quadro mental duradouro, você precisa pensar em epilepsia. A literatura citada na questão justamente discute esse diagnóstico como hipótese explicativa mais provável para a experiência de Joana D'Arc. Transtorno bipolar também não encaixa, porque o enunciado não traz episódio de mania ou depressão, apenas alucinações episódicas. Histeria, hoje associada a manifestações dissociativas/conversivas, e transtornos somatoformes não explicam bem alucinações auditivas e visuais desse tipo. Então, o gabarito C está correto porque o quadro é de fenômeno paroxístico, breve, sensorial e ligado ao sono, muito mais sugestivo de epilepsia do que de psicose. Em prova, guarde a lógica: psicose costuma ser mais contínua e desorganizadora; epilepsia costuma ser breve, episódica e com aura, automatismos ou fenômenos sensoriais. A banca adora colocar uma figura histórica quase mística para te puxar para "esquizofrenia", mas aqui o detalhe temporal salva a questão.

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