“Na série [Modern Life], vemos a personagem Lexi ser charmosa, ‘brilhante’, produtiva e cativante. ‘Conheci um homem no corredor de pêssegos [do supermercado]’, ela canta. ‘Não há uma nuvem no céu.’ Também a vemos alternar em episódios depressivos, com dias em que ela não consegue sair da cama. Ela vive lutando para encontrar o amor e, finalmente quando pode ter encontrado, afasta um romance com o personagem Jeff interpretado por Gary Carr. ” Fonte: Bernardinelli, P.A.J. https://www.psicologiaemseries.com.br/, acesso em 19/08/2023 A personagem Lexi, protagonista da história, é uma jovem bemsucedida cuja vida é marcada por períodos de depressão com alterações do sono, melancolia, anedonia, anergia e cognições compatíveis. Esses quadros autolimitados duram pelo menos duas semanas. E são intercalados por períodos em que a sua energia aflora (como no relato acima), experimentando extrema felicidade, criatividade, disposição excepcional para o trabalho, o qual exerce com excelência. Veja: “Take Me As I Am, Whoever I Am” Modern Life 3rd Episode. Amazon Prime. Sobre a história de Lexi, trazemos três afirmativas: I. Provavelmente a jovem é portadora de transtorno bipolar tipo II, uma vez que seus períodos de produtividade e bem-estar podem ser caracterizar como episódios de hipomania, pois não são disfuncionais. II. Buscar na história da jovem períodos assintomáticos facilitaria o diagnóstico, condizendo com uma situação de remissão de sintomas. III. Para diagnóstico diferencial, na ciclotimia a duração e intensidade dos sintomas não coincidem nem com Transtorno Bipolar tipo I nem tipo II. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa afirma que somente a afirmativa I estaria correta, isto é, que o quadro descrito sugere transtorno bipolar tipo II por haver períodos compatíveis com hipomania, sem prejuízo funcional marcante. Isso está de acordo com o raciocínio clínico do DSM-5, porque a bipolaridade tipo II combina episódios depressivos maiores com hipomania, e não com mania. O problema é que a opção ignora que as afirmativas II e III também estão corretas, pois a remissão entre episódios ajuda o diagnóstico e a ciclotimia tem sintomas crônicos subthreshold, distintos do tipo I e do tipo II.
- B)II, apenas.
A alternativa diz que apenas a afirmativa II seria verdadeira, valorizando a ideia de procurar períodos assintomáticos para identificar remissão e curso episódico. Esse ponto é clinicamente válido, porque em transtornos bipolares a história longitudinal e os intervalos de eutimia ajudam a caracterizar o diagnóstico. Porém, a opção fica incompleta, porque a afirmativa I também é compatível com bipolar II e a III descreve corretamente a ciclotimia como um quadro que não preenche os critérios de mania ou de episódio hipomaníaco/depressivo maior.
- C)III, apenas.
A alternativa sustenta que só a afirmativa III estaria correta, destacando a ciclotimia como um transtorno de oscilação crônica com duração e intensidade que não alcançam os limiares do transtorno bipolar I ou II. Esse conceito está certo: na ciclotimia há sintomas hipomaníacos e depressivos subclínicos por pelo menos 2 anos, sem episódios completos. O erro é excluir as demais, porque a descrição da personagem também favorece bipolar II e a busca por períodos assintomáticos realmente auxilia a identificação do curso episódico.
- D)I e II, apenas.
A alternativa afirma que as afirmativas I e II estariam corretas, ou seja, que o caso sugere bipolar II e que a investigação de períodos sem sintomas ajuda a fechar o diagnóstico. Ambas as ideias são consistentes com a prática psiquiátrica, já que o diagnóstico depende da sequência de episódios depressivos e hipomaníacos e da avaliação de remissões. A falha é deixar de fora a afirmativa III, que também está correta ao definir a ciclotimia como um quadro persistente de sintomas menos intensos e menos duradouros do que os episódios do bipolar I e II.
- E)I, II e III.
A alternativa reúne corretamente as três afirmativas. A I é verdadeira porque o caso descreve episódios depressivos maiores e períodos de elevação de energia, criatividade e produtividade compatíveis com hipomania, sem a gravidade da mania, o que aponta para transtorno bipolar tipo II. A II também procede, pois a pesquisa de intervalos assintomáticos mostra o caráter episódico e a remissão, e a III está certa ao diferenciar a ciclotimia, em que os sintomas não atingem a duração e a intensidade exigidas para bipolar I ou II.
Gabarito: E
O caso descreve um quadro muito típico de transtorno bipolar: fases depressivas bem definidas, com sintomas como anedonia, anergia, alterações do sono e duração de pelo menos duas semanas, intercaladas por períodos de elevação de energia, produtividade e bem-estar. Em Psiquiatria, isso acende a luz do transtorno bipolar do espectro, e o ponto-chave é diferenciar mania, hipomania, depressão e ciclotimia. No transtorno bipolar tipo II, há pelo menos um episódio hipomaníaco e um ou mais episódios depressivos maiores, sem história de mania. A hipomania é parecida com a mania, mas mais leve: o sujeito fica mais acelerado, criativo, expansivo ou produtivo, porém sem prejuízo grave, sem psicose e sem necessidade de internação. É justamente por isso que a afirmativa I está correta: os períodos de maior energia e rendimento da personagem podem ser entendidos como episódios hipomaníacos. A afirmativa II também está correta porque, para fechar o diagnóstico, ajuda muito saber se existem intervalos assintomáticos entre os episódios. Esses períodos podem ocorrer em remissão, isto é, com desaparecimento ou grande redução dos sintomas entre as fases. Na prática, a história longitudinal do paciente vale ouro, porque o transtorno bipolar raramente se revela inteiro em uma única consulta. Já a afirmativa III também está certa: na ciclotimia, há oscilação crônica do humor com sintomas hipomaníacos e depressivos, mas sem preencher os critérios completos de episódio maníaco, hipomaníaco ou depressivo maior. Em outras palavras, a intensidade e a duração ficam "no meio do caminho" em relação ao transtorno bipolar tipo I e tipo II. Por isso, o gabarito é E. Como referência doutrinária, isso está em linha com o DSM-5-TR e a CID-11, que organizam o espectro bipolar justamente por esses critérios de duração, intensidade e repercussão funcional.