Joel, 70 anos, tem se queixado de “sono ruim” há alguns anos, acordando cedo e tirando cochilos durante o dia. Na época, o psiquiatra prescreveu Rivotril 0,5mg, à noite. Dois anos depois, já estava dormindo mal com a dose de 2mg. Sobre este caso, é correto afirmar que
- A)houve tolerância à medicação, tolerância esta causada pelo aumento da eficiência do metabolismo hepático.
Errada: a tolerancia pode ocorrer com benzodiazepinicos, mas nao se explica simplesmente por aumento da eficiencia do metabolismo hepatico, e sim por adaptacao farmacodinamica e possivel reducao de efeito clinico.
- B)o uso de uma droga-Z, não benzodiazepínica, como o zolpidem, está isento de riscos pois tem meia vida muito curta.
Errada: drogas-Z como zolpidem nao sao isentas de risco, pois podem causar quedas, confusao, amnesia, comportamento complexo do sono e sedacao residual, especialmente em idosos.
- C)a quetiapina pode ser uma boa opção para tratamento da insônia desse paciente, uma vez que tem meia vida curta e não causa sedação residual.
Errada: quetiapina nao e boa opcao rotineira para insonia, porque nao e indicada como hipnotico e pode causar sedacao, hipotensao ortostatica, ganho de peso e outros eventos adversos.
- D)a arquitetura do sono sofre alterações à medida que envelhecemos, mais importante talvez seja observar o impacto do perfil de sono no bem-estar do paciente.
Certa: o sono do idoso sofre mudancas fisiologicas com a idade, e a conduta deve priorizar o impacto do quadro no funcionamento e no bem-estar, nao uma ideia fixa de sono perfeito.
- E)a higiene do sono não é uma abordagem útil para idosos com insônia.
Errada: higiene do sono e uma medida util e deve ser parte do manejo da insonia em idosos, junto com avaliacao de causas secundarias e revisao de habitos.
Gabarito: D
Em idosos, sono ruim nem sempre significa doenca ou precisa obrigatoriamente de sedativo forte. Com o envelhecimento, o sono tende a ficar mais fragmentado, com menos sono profundo, mais despertares noturnos e tendencia a cochilos durante o dia. Ou seja: a arquitetura do sono muda com a idade, e isso faz parte do quadro esperado em muitos pacientes. Por isso, a avaliacao correta nao olha so para a quantidade de horas dormidas, mas principalmente para o impacto funcional: o paciente esta cansado? tem sonolencia diurna importante? caiu? perdeu autonomia? fica irritado? Se o perfil de sono nao esta prejudicando a qualidade de vida, nem todo padrao diferente precisa de remédio forte. Em geriatria, menos costuma ser mais. O gabarito esta na alternativa D porque ela traz a ideia central da abordagem correta: reconhecer que o sono do idoso muda fisiologicamente e que a decisao terapeutica deve considerar o bem-estar global, nao apenas o horario em que ele dorme ou acorda. Isso evita medicalizacao excessiva e uso prolongado de hipnoticos, que podem aumentar risco de quedas, confusao e dependencia. A mensagem pratica e simples: antes de escalar benzodiazepinico ou trocar por outro sedativo, vale revisar higiene do sono, comorbidades, medicamentos, cafeina, dor, depressao e rotina. Em idosos, tratar a pessoa costuma ser mais inteligente do que tentar consertar um numero na relogio.