Reza a lenda que um famoso cantor brasileiro quase foi levado preso de uma igreja que visitava em Portugal. Católico fervoroso, foi rezar seus vários terços naquele templo. Porém, eis que o sacristão fechou a porta principal da Igreja depois de certa hora, e abriu a passagem lateral para a saída dos fiéis. Nosso artista, porém, tomado pela angústia, exigiu sair pela mesma porta em que entrou. Na discussão de “abre não abre” em terras lusitanas, a celebridade não teve tanto sucesso em sua pretensão e, com a chegada da polícia, teve de deixar a Igreja pela porta lateral. Nosso personagem, além de religioso, é uma pessoa arraigada em suas crenças e valores, chegando à inflexibilidade, o que lhe produz, volta e meia, problemas na vida pessoal e profissional, agravados pelo perfeccionismo, apesar de ser afável, amoroso e empático com os que sabem lidar com ele. Aos amigos, uma fidelidade extrema. Tem rotinas bem estabelecidas, não varia o tom de cor das suas roupas. Volta e meia toma analgésicos e antiácidos para cefaleia e a pirose que não o abandonam. Detalhe: tem horror a psiquiatras. Caso fosse diagnosticado, nosso personagem se encaixaria melhor no critério de Transtorno de(o):
- A)Personalidade Esquizotípico.
Errada: personalidade esquizotípica envolve estranheza, crenças incomuns, pensamento mágico e excentricidade, o que não é o foco do caso.
- B)Espectro Autista.
Errada: espectro autista é marcado por déficits de comunicação social e padrões restritos desde o desenvolvimento, não por rigidez de personalidade descrita como traço predominante aqui.
- C)Personalidade Obsessivo Compulsivo.
Certa: o caso descreve perfeccionismo, rigidez, necessidade de controle, apego a rotinas e inflexibilidade, que são típicos do transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva.
- D)Ansiedade Generalizada.
Errada: ansiedade generalizada é um transtorno ansioso com preocupação excessiva difusa, não um padrão estável de personalidade como o descrito.
- E)Personalidade Histriônico.
Errada: personalidade histriônica se caracteriza por teatralidade, busca de atenção e emocionalidade superficial, bem diferente do perfil rígido e perfeccionista do enunciado.
Gabarito: C
O quadro descrito é muito típico de Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva, que não é o mesmo que TOC. Aqui o foco não são obsessões e compulsões propriamente ditas, mas um padrão de personalidade marcado por perfeccionismo, rigidez, necessidade de controle, apego a rotinas e dificuldade com mudanças. A pessoa pode ser correta, responsável e até muito confiável, mas isso vem com um custo: inflexibilidade, teimosia e prejuízo na vida social e profissional. Na clínica, esse transtorno costuma aparecer em gente muito organizada, preocupada com regras, detalhes e com a maneira “certa” de fazer as coisas. O famoso “só sai pela porta por onde entrou” combina bem com essa rigidez mental. Também é comum a pessoa ser afável e empática em alguns contextos, o que pode confundir quem pensa em outras personalidades. Mas a marca central continua sendo a inflexibilidade e o perfeccionismo excessivo. É importante diferenciar de TOC: no TOC, o núcleo são obsessões e compulsões reconhecidas como intrusivas e, em geral, indesejadas. Já no transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva, o padrão é mais duradouro e faz parte do jeito de ser da pessoa. O DSM-5-TR descreve justamente esse estilo de personalidade com preocupação por ordem, controle e perfeccionismo às custas de flexibilidade. Por isso, o gabarito C está correto: o enunciado pintou um perfil clássico de personalidade obsessivo-compulsiva, com rigidez, apego a rotinas, perfeccionismo, controle e sofrimento relacional. Em prova, pense assim: quando a questão fala mais do jeito de ser da pessoa do que de rituais obsessivos, a pista costuma apontar para transtorno de personalidade.