Observe abaixo três características ou indícios externos que, do ponto de vista prático, são muito importantes para a identificação clínica de um determinado processo psíquico patológico: 1. O indivíduo tem convicção extraordinária, uma certeza subjetiva praticamente absoluta. Sua crença é total(...). 2. É impossível a modificação deste processo pela experiência objetiva, por provas explícitas da realidade, por argumentos lógicos, plausíveis e aparentemente convincentes. Assim, dizse que tal processo é irremovível, irrefutável; mesmo pela prova de realidade mais cabal, ele não pode ser influenciado externamente por pessoas que queiram demover o indivíduo de suas crenças. 3. É, quase sempre, um juízo falso; seu conteúdo é impossível. Fonte: Dalgalarrondo P, Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, 3ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. pag 383-384. O processo psíquico patológico em questão é
- A)a ruminação.
Errada, porque ruminação é um pensar repetitivo e circular, geralmente ligado a sofrimento psíquico, mas sem a certeza absoluta e a irrefutabilidade descritas no enunciado.
- B)a obsessão.
Errada, porque obsessão é uma ideia intrusiva e geralmente reconhecida como absurda ou excessiva pelo próprio indivíduo, ao contrário da convicção delirante.
- C)a ideia prevalente.
Errada, porque ideia prevalente é uma crença muito carregada afetivamente e importante para a pessoa, mas não tem o grau de fechamento, falsidade impossível e resistência total ao contraste com a realidade.
- D)o delírio.
Certa, porque delírio é justamente a crença de convicção extraordinária, impermeável à argumentação e, em geral, com conteúdo falso ou impossível.
- E)a catatimia.
Errada, porque catatimia é um processo em que o afeto distorce o juízo e a percepção da realidade, mas não define, por si só, a tríade clássica apresentada.
Gabarito: D
A questão descreve o delírio, que é uma das ideias mais clássicas da psicopatologia. Em termos práticos, ele costuma aparecer com três marcas bem importantes: convicção absoluta, impossibilidade de ser corrigido pela realidade e conteúdo falso ou, ao menos, claramente impossível. Ou seja, a pessoa não está apenas "achando" algo com força; ela acredita de modo total e não se deixa convencer nem com prova na frente do nariz. Esse ponto é o que diferencia o delírio de outras manifestações do pensamento. Na obsessão, por exemplo, a pessoa costuma reconhecer o caráter absurdo ou intrusivo da ideia, ainda que sofra muito com ela. Já na ideia prevalente, a crença pode ser forte e influente, mas ainda dialoga com a realidade e pode ser confrontada. No delírio, não: a crença vem fechada, blindada, irremovível. A doutrina clássica de psicopatologia, como a de Dalgalarrondo, usa exatamente esses critérios para identificar o fenômeno. Por isso o enunciado praticamente entrega o nome do processo: certeza subjetiva extrema, irrefutabilidade e falsidade do conteúdo apontam para delírio. Então, o gabarito D está correto porque o quadro descrito é o de uma crença patológica fixa, não corrigível pela experiência nem pela lógica. Em linguagem de prova: se a ideia parece "à prova de realidade", pense em delírio.