Sobre o transtorno doloroso, um dos transtornos psicossomáticos mais comuns, analise as afirmativas a seguir. I. Uma dor apenas física pode ser difícil de distinguir de uma dor apenas psicogênica, sobretudo porque as duas não são mutuamente excludentes. A dor física flutua em intensidade e é muito sensível a influências emocionais, cognitivas, atencionais e situacionais. II. Devido à grande comorbidade entre transtorno doloroso e outras condições de sofrimento mental, o tratamento deve incluir tais comorbidades; o biofeedback pode ser útil no tratamento do transtorno doloroso, em particular com dor de enxaqueca, dor miofascial e estados de tensão muscular, como dores de cabeça tensionais. III. É importante observar a influência de ganhos secundários nas síndromes dolorosas, que podem reforçar ou mesmo gerar um componente psicogênico. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa restringe o acerto apenas à afirmativa I, que descreve corretamente a sobreposição entre dor orgânica e dor com modulação psíquica, além da influência de fatores emocionais, cognitivos, atencionais e situacionais na intensidade da dor. O problema é que essa não é a única proposição correta: a II também traduz a conduta clínica recomendada diante da comorbidade psiquiátrica, e a III reconhece o papel dos ganhos secundários na manutenção do quadro doloroso. Assim, a opção fica incompleta.
- B)I e II, apenas.
Aqui se afirma que somente I e II estariam corretas. A I está certa ao mostrar que a dor física pode ser difícil de separar da dor psicogênica e que a experiência dolorosa não é independente do contexto emocional e atencional; a II também está bem formulada ao incluir a abordagem das comorbidades e o uso de biofeedback em quadros como enxaqueca e cefaleia tensional. O erro é excluir a III, porque ganhos secundários podem sim reforçar, cronificar ou até contribuir para o componente psicogênico da dor.
- C)I e III, apenas.
Essa alternativa reúne I e III. A I é verdadeira porque a dor não é um fenômeno puramente orgânico, sendo intensificada ou atenuada por aspectos emocionais e situacionais, e a III também corresponde a um dado clínico relevante ao destacar que benefícios secundários podem sustentar o sintoma doloroso. O que falta é a II, que igualmente está correta ao lembrar a necessidade de tratar comorbidades e a utilidade do biofeedback em determinados tipos de dor.
- D)II e III, apenas.
A alternativa apresenta II e III como suficientes. A II está correta ao afirmar que o manejo do transtorno doloroso deve considerar as comorbidades psiquiátricas e que o biofeedback pode ajudar em situações como enxaqueca, dor miofascial e cefaleia tensional; a III também é compatível com a clínica, pois ganhos secundários podem manter ou reforçar o quadro. O defeito é deixar de fora a I, que também é verdadeira ao mostrar a difícil separação entre dor física e dor psicogênica e a modulação biopsicossocial da experiência dolorosa.
- E)I, II e III.
Esta é a opção correta porque reúne as três afirmativas verdadeiras. A I traduz bem a ideia de que dor orgânica e dor psicogênica não são compartimentos estanques e que a dor é sensível a emoção, atenção e contexto; a II está de acordo com a abordagem clínica ao destacar comorbidades e o uso de biofeedback; e a III reconhece um mecanismo clássico de manutenção da queixa, que é o ganho secundário. Em conjunto, elas retratam corretamente a compreensão psiquiátrica do transtorno doloroso.
Gabarito: E
O transtorno doloroso aparece, em linhas gerais, quando a dor vira o centro da vida do paciente e passa a ter forte interferência psíquica, comportamental e funcional. O ponto importante aqui é que dor física e dor de origem psicológica não são caixas separadas e estanques: na prática, elas costumam se misturar, e fatores emocionais, atenção, estresse e contexto podem amplificar a percepção dolorosa. Por isso a afirmativa I está correta. A afirmativa II também está correta porque, em psiquiatria, raramente vale tratar a dor isoladamente quando há comorbidades como ansiedade, depressão e outros quadros de sofrimento mental. O manejo costuma ser integrado, e técnicas como o biofeedback podem ajudar especialmente em situações em que há componente de tensão muscular, cefaleia tensional, enxaqueca e dor miofascial. Ou seja, não é só “dar remédio e pronto”: o cérebro participa bastante da dor. A afirmativa III igualmente está correta. Ganhos secundários, como atenção excessiva, afastamento de atividades desagradáveis ou benefícios indiretos, podem reforçar o sintoma doloroso e até ajudar a sustentar um componente psicogênico. Isso não significa que a dor seja “falsa”, mas sim que o contexto pode manter ou piorar o quadro. Por isso, o gabarito é E, pois as três afirmativas estão alinhadas com a visão clínica clássica do transtorno doloroso na psiquiatria. Em prova, a FGV costuma cobrar justamente essa ideia de integração entre corpo e mente, sem cair na armadilha de separar dor física e psíquica como se fossem mundos independentes.