Leia o fragmento a seguir. Juliette acredita nas próprias histórias por mais estranhas que possam ser. Neste momento, está contando para as pessoas que é bisneta da princesa Anastásia da Rússia. Sobre a conduta de Juliette, analise as afirmativas a seguir. I. Caso se revelem como fantasias bem estruturadas, porém passíveis de autoquestionamento, conforme os argumentos são construídos, não podemos considerar a existência de um delírio. No entanto, podemos estar diante de um caso de pseudologia fantástica, que são fantasias construídas ao redor dos desejos da paciente e mescladas à sua realidade. II. Este fenômeno pode estar presente no transtorno de personalidade histriônico, uma vez que pode ser instrumento na expectativa de centralização da atenção de outrem ao redor da pessoa do paciente. III. Sendo as histórias de Juliette um delírio, a variedade de transtornos potencialmente responsáveis é muito grande, da esquizofrenia até mesmo um transtorno delirante persistente. Está correto o que se afirma em
- A)III, apenas.
Esta alternativa afirma que apenas a afirmativa III está correta, isto é, que a hipótese de Juliette seria melhor entendida como delírio e que o espectro diagnóstico possível seria amplo. De fato, se houver delírio, o raciocínio clínico deve abranger várias etiologias, como esquizofrenia, transtorno delirante persistente, transtornos do humor com sintomas psicóticos e causas orgânicas. O problema é que I e II também estão corretas, porque descrevem adequadamente a pseudologia fantástica e sua associação com personalidade histriônica.
- B)I e II, apenas.
Aqui se sustenta que somente I e II estariam corretas, ou seja, que o caso pode ser interpretado como pseudologia fantástica e que esse fenômeno pode aparecer no transtorno de personalidade histriônico. Esse raciocínio está bem fundamentado, porque fantasias elaboradas, parcialmente mescladas à realidade e ainda passíveis de questionamento, não configuram delírio, e a necessidade de centralidade e atenção pode favorecer esse tipo de fabulação. O erro é excluir a afirmativa III, já que o delírio, se presente, tem um diagnóstico diferencial bem mais amplo do que o enunciado sugere.
- C)I e III, apenas.
Esta opção diz que apenas I e III são verdadeiras, ou seja, reconhece a pseudologia fantástica e a ampla etiologia possível do delírio, mas nega a relação com transtorno de personalidade histriônico. Isso está incorreto porque o histrionismo é um contexto clássico de teatralidade, sedução e busca de atenção, no qual podem surgir relatos fantasiosos e exagerados para chamar a centralidade do olhar alheio. Como a afirmativa II também procede, a exclusão dela torna a alternativa errada.
- D)II e III, apenas.
A alternativa afirma que somente II e III estariam corretas, deixando de fora a ideia de que fantasias bem construídas, mas ainda questionáveis, apontam mais para pseudologia fantástica do que para delírio. Esse ponto é verdadeiro: quando há certa permeabilidade ao questionamento e enredo voltado a desejos pessoais, o quadro não se comporta como crença delirante fixa. Assim, como a afirmativa I também está correta, a combinação proposta fica incompleta.
- E)I, II e III.
Esta é a alternativa correta porque as três afirmativas descrevem adequadamente o quadro. A I diferencia delírio de pseudologia fantástica ao destacar fantasia elaborada, mesclada à realidade e ainda suscetível a autoquestionamento; a II reconhece que esse tipo de fabulação pode aparecer no transtorno de personalidade histriônico, como forma de buscar atenção; e a III lembra que, se houver delírio, o diagnóstico diferencial é amplo, indo de esquizofrenia a transtorno delirante persistente e outras causas psicóticas.
Gabarito: E
A questão mistura três ideias clássicas da Psiquiatria Clínica: delírio, pseudologia fantástica e transtorno de personalidade histriônico. O ponto central é perceber que nem toda história absurda é delírio. No delírio, a pessoa tem uma crença falsa, mantida com convicção, sem correção pela lógica ou pela prova contrária. Já na pseudologia fantástica, a pessoa cria narrativas mentirosas, grandiosas ou românticas, muitas vezes com algum grau de elaboração e mistura com a realidade, podendo até haver certa oscilação ou autoquestionamento, o que afasta o delírio típico. A afirmativa I está correta porque descreve justamente essa diferença: fantasia bem construída, com elementos que podem ser questionados e articulados ao redor de desejos e da história pessoal, aponta mais para pseudologia fantástica do que para delírio. Esse tipo de comportamento é mais uma produção narrativa patológica do que uma convicção delirante rígida. A afirmativa II também está correta. O transtorno de personalidade histriônico pode apresentar teatralidade, necessidade de atenção, sedução e exagero emocional. Nesse contexto, inventar ou dramatizar histórias pode funcionar como estratégia para chamar atenção e manter o foco dos outros sobre si. A afirmativa III igualmente está correta porque delírios podem aparecer em muitos transtornos, indo de quadros psicóticos primários, como a esquizofrenia, até o transtorno delirante persistente. Ou seja, se a história de Juliette for um delírio de fato, o diagnóstico diferencial é amplo. Por isso, o gabarito E está certo: as três afirmativas descrevem possibilidades compatíveis com a clínica psiquiátrica.