No segundo semestre de 2023, a Netflix lançou a série “Império da dor” (título original: “PainKillers”) que conta a história verídica da droga OxiContin® (princípio ativo é a oxicodona) lançada nos EUA em 1995, cuja prescrição foi considerada “indiscriminada” pelos autores da série, e relacionada a milhares de mortes e a um aumento significativo nos problemas sociais relacionados ao uso de substâncias psicoativas. Sobre a oxicodona e este caso célebre da história assinale a afirmativa correta.
- A)A oxicodona é um agonista do sistema endocanabinoide, de alta potência.
Errada: a oxicodona é um opioide agonista de receptores mu, e não um agonista do sistema endocanabinoide.
- B)Os sintomas da abstinência podem incluir vômitos e diarreia.
Certa: a abstinência de opioides pode causar sintomas gastrointestinais, como vômitos e diarreia.
- C)Um possível mecanismo da dependência química pode estar associado a infrarregulação de receptores K (kappa).
Errada: a dependência por opioides se relaciona sobretudo a receptores opioides e circuitos de recompensa, não a infrarregulação de receptores kappa como mecanismo principal.
- D)A oxicodona é indicada para uso contínuo em qualquer situação clínica, uma vez que não há de fato evidências que provem que esta droga produza dependência química.
Errada: a oxicodona pode causar tolerância e dependência química, portanto não é indicada para uso contínuo em qualquer situação.
- E)A intoxicação aguda com risco de morte pode ser tratada com antídotos como, por exemplo, o flumazenil.
Errada: o antídoto da intoxicação por opioides é a naloxona; flumazenil é usado em intoxicação por benzodiazepínicos.
Gabarito: B
A oxicodona é um opioide semissintético, usado para analgesia, mas com potencial importante de tolerância, dependência e overdose. Na história da OxyContin, o problema central foi o uso amplo e muitas vezes inadequado, em um cenário de subestimação dos riscos de opioides. Isso ajuda a lembrar uma regra clássica: quanto mais potente o opioide e quanto maior o tempo de uso, maior o risco de abstinência, abuso e intoxicação. Na abstinência de opioides, o corpo reage como se estivesse “protestando” pela falta da substância. Por isso aparecem sintomas autonômicos e gastrointestinais, como lacrimejamento, rinorreia, sudorese, dor muscular, ansiedade, além de vômitos e diarreia. Esses sinais são bem típicos e costumam cair em prova porque lembram uma “gripe forte”, mas com um componente comportamental e vegetativo muito marcante. Do ponto de vista fisiopatológico, a dependência envolve adaptações neurobiológicas nos sistemas de recompensa e estresse, principalmente com participação de receptores opioides e da via dopaminérgica. Já a intoxicação por opioides pode causar depressão respiratória, miose e rebaixamento do nível de consciência, e o antídoto clássico é a naloxona, não o flumazenil. O flumazenil é usado em intoxicação por benzodiazepínicos, então misturar os dois é uma armadilha bem comum. Assim, a alternativa correta é a B, porque vômitos e diarreia fazem parte do quadro de abstinência por opioides, incluindo a oxicodona. Em psiquiatria e farmacologia, a banca costuma cobrar justamente essa leitura clínica: identificar o padrão de intoxicação, abstinência e o antídoto adequado sem confundir classes de drogas.