Jovem esquizofrênico relata que sua "missão" começou quando um amigo lhe trouxe de presente uma lembrança de uma igreja da cidade de Ouro Preto. Apesar de reconhecer que se tratava de um souvenir comum, muito vendido naquela cidade histórica, o jovem diz que, no momento em que recebeu o presente, soube que ele era o "escolhido" por Deus para dar continuidade à missão de Jesus na Terra e passou a peregrinar pelas cidades próximas para arregimentar seguidores fiéis e fundar uma nova religião. Esse relato é um exemplo de:
- A)alteração da consciência do eu;
Errada, porque alteração da consciência do eu é um termo mais amplo e inespecífico, não descrevendo o vínculo imediato entre um estímulo real e o sentido delirante atribuído a ele.
- B)percepção delirante;
Certa, porque um objeto real e comum passa a ter, de forma súbita, um significado especial e delirante para o paciente, caracterizando percepção delirante.
- C)alteração da identidade do eu;
Errada, porque alteração da identidade do eu se refere à sensação de mudança do próprio self, e não à atribuição delirante de significado a um estímulo percebido.
- D)delírio persecutório;
Errada, porque delírio persecutório envolve crença de perseguição, ameaça ou conspiração, o que não é o conteúdo principal do relato.
- E)pseudoalucinação.
Errada, porque pseudoalucinação é uma vivência semelhante à alucinação, porém reconhecida como interna e sem objeto real externo, o que não ocorre aqui.
Gabarito: B
A questão cobra as chamadas vivências delirantes primárias, muito lembradas na esquizofrenia. Nelas, algo banal do cotidiano ganha, de repente, um significado absurdo e incontestável para a pessoa. O objeto é real, a percepção é normal, mas o sentido atribuído a ele vem carregado de delírio. É exatamente isso que acontece no enunciado: o jovem recebe um souvenir comum de igreja, reconhece que é um objeto qualquer, mas, naquele instante, entende que aquilo tem uma mensagem especial e divina para ele. Esse salto de significado, sem mediação lógica e sem base na realidade, é a chamada percepção delirante. Por isso o gabarito é a letra B. Diferente de uma interpretação exagerada ou de uma simples crença estranha, aqui há um vínculo imediato entre uma percepção verdadeira e uma convicção delirante. Em psicopatologia clássica, isso é descrito como um fenômeno típico da esquizofrenia e de outros quadros psicóticos. Se você guardar uma regra prática, ela ajuda bastante: objeto real + significado delirante instantâneo = percepção delirante. Já se a pessoa inventa ou interpreta a partir de uma impressão interna sem objeto externo, aí você começa a pensar em outras alterações do eu ou em fenômenos alucinatórios.