Um efeito colateral temido e de difícil manejo no tratamento com antipsicóticos é a discinesia tardia. Sobre esse efeito adverso, é correto afirmar que
- A)os pacientes que apresentam sintomas extrapiramidais no início do tratamento têm probabilidade duas vezes maior de apresentar discinesia tardia.
Correta: sintomas extrapiramidais no início do tratamento sinalizam maior risco futuro de discinesia tardia, cerca de duas vezes maior.
- B)ocorre por ação do bloqueio dopaminérgico na via mesocortical.
Errada: a discinesia tardia está ligada principalmente ao bloqueio crônico da via nigroestriatal, não da via mesocortical.
- C)é reversível, uma vez interrompido o uso do agente antipsicótico causador.
Errada: a suspensão do antipsicótico não garante reversão, e o quadro pode persistir por longo tempo.
- D)cerca de 50% dos pacientes tratados com antipsicóticos estão sujeitos a desenvolver discinesia tardia todos os anos.
Errada: a incidência não é de 50% ao ano; esse número é muito exagerado e incompatível com a epidemiologia da complicação.
- E)o risco de desenvolver discinesia tardia após 15 anos de tratamento com antipsicóticos típicos é semelhante ao do início do tratamento.
Errada: o risco não se mantém igual ao longo do tempo, pois tende a aumentar com a duração cumulativa do tratamento, especialmente com antipsicóticos típicos.
Gabarito: A
A discinesia tardia é um efeito adverso motor associado ao uso prolongado de antipsicóticos, sobretudo os típicos, e costuma aparecer após meses ou anos de bloqueio dopaminérgico. Ela se manifesta com movimentos involuntários, principalmente orofaciais, como protrusão da língua, caretas e mastigação, e pode persistir mesmo depois da suspensão do remédio. Por isso, é uma complicação temida: quando surge, nem sempre some de forma rápida ou completa. O mecanismo mais cobrado é a hipersensibilidade compensatória dos receptores dopaminérgicos, especialmente no estriado, após bloqueio crônico da via nigroestriatal. Não é um problema da via mesocortical, e sim da via motora extrapiramidal. Em linguagem de prova: o cérebro tenta se adaptar ao bloqueio contínuo e, nesse vaivém, os movimentos involuntários aparecem como efeito tardio. A alternativa A está correta porque sintomas extrapiramidais precoces, como parkinsonismo, distonia e acatisia, indicam maior sensibilidade do paciente ao bloqueio dopaminérgico. Isso se associa a maior risco de discinesia tardia, em torno de duas vezes maior, o que é uma relação clássica em psicofarmacologia. Em outras palavras, se o paciente já começou a reclamar cedo do remédio, a vigilância deve ser ainda maior. Vale lembrar que a discinesia tardia não é, em regra, totalmente reversível apenas com a retirada do antipsicótico. A conduta envolve prevenção, uso da menor dose eficaz, reavaliação do esquema e, em alguns casos, medicações específicas como inibidores de VMAT2. FGV adora confundir efeito extrapiramidal precoce com discinesia tardia e trocar via dopaminérgica como se fosse peça de encaixe errada.