Uma mulher de 80 anos apresenta há 1 ano história de perda de memória. Seu parceiro notou que ela vem se repetindo mais do que costumava e esqueceu algumas consultas médicas. Apresentava também alguma dificuldade em encontrar a palavra certa. Nega sintomas depressivos e era capaz de realizar suas atividades da vida diária de forma independente. Seus níveis de vitamina B12, função da tireoidiana e a ressonância magnética de crânio estavam normais. O exame neuropsicológico evidenciou uma pontuação significativamente baixa no teste de nomeação de Boston, falhas de memória episódica no teste das três palavras e três figuras e a pontuação de rastreio cognitivo na avaliação Cognitiva Montreal (Montreal Cognitive Assessement - MoCA) fi 26/30, na qual acertou apenas uma das cinco palavras da evocação. De acordo com o ocaso apresentado, o diagnóstico mais provável é
- A)doença de Alzheimer.
Errada, porque doença de Alzheimer como demência exigiria prejuízo funcional mais claro nas atividades da vida diária, o que não aconteceu.
- B)comprometimento cognitivo leve amnésico de múltiplos domínios.
Certa, porque há comprometimento de memória e linguagem, com independência funcional preservada, caracterizando CCL amnésico de múltiplos domínios.
- C)comprometimento cognitivo leve amnésico de único domínio.
Errada, porque não é apenas memória que está alterada; a nomeação e a linguagem também foram afetadas.
- D)envelhecimento normal.
Errada, porque envelhecimento normal não costuma causar falhas objetivas em testes neuropsicológicos nem queixa progressiva confirmada por informante.
- E)afasia progressiva primária.
Errada, porque afasia progressiva primária é um quadro dominado por linguagem, e aqui há comprometimento amnéstico importante junto com outras áreas cognitivas.
Gabarito: B
A lógica aqui é distinguir envelhecimento normal, comprometimento cognitivo leve (CCL) e demência. A idosa tem queixa cognitiva confirmada pelo informante, principalmente memória e linguagem, com piora em testes de evocação e nomeação, mas continua independente para as atividades da vida diária. Isso afasta doença de Alzheimer já instalada como demência, porque ainda não há prejuízo funcional relevante. Em geriatria, funcionalidade pesa muito: quando a pessoa ainda toca a vida sozinha, mesmo com falhas cognitivas objetivas, pensamos primeiro em CCL. O ponto-chave é que o quadro não é de CCL amnésico de único domínio, porque não existe só memória comprometida. Ela também apresentou dificuldade de linguagem, especialmente nomeação no teste de Boston, o que indica comprometimento de mais de um domínio cognitivo. Portanto, trata-se de CCL amnésico de múltiplos domínios. Os exames normais de B12, tireoide e a RM ajudam a afastar causas reversíveis e outras lesões estruturais. O MoCA 26/30 pode parecer quase normal, mas em idosos isso não zera a hipótese quando o exame neuropsicológico mostra falhas específicas, porque o teste de rastreio é só a porta de entrada, não a sentença final. A doutrina clínica em psiquiatria geriátrica e neurologia é bem clara: CCL é declínio cognitivo mensurável sem perda funcional importante, podendo envolver um ou mais domínios. Então, o gabarito B está correto porque há memória e linguagem afetadas, com independência preservada nas atividades diárias. Ainda não há critério suficiente para demência, e também não é envelhecimento normal, porque há prejuízo objetivo em testes e relato consistente de piora.