Empresário de 40 anos procurou tratamento psiquiátrico após o término de um relacionamento amoroso. Ele relata ter sido abandonado por diversas namoradas ao longo da vida, por causa de suas explosões repentinas de raiva. Essas explosões aconteciam com muita frequência e eram desencadeadas por motivos banais. Em várias ocasiões, o paciente ficava tão incontrolavelmente furioso que jogava coisas pelo chão, quebrava objetos e fazia escândalos em público, o que deixava extremamente envergonhado poucas horas depois. Episódios semelhantes também ocorriam às vezes no seu trabalho. Entre os episódios, ele era uma pessoa calma, gentil, amorosa e tinha muitos amigos. O diagnóstico mais provável para o quadro clínico descrito é transtorno:
- A)da personalidade histriônica;
Errada, porque o transtorno histriônico gira em torno de busca de atenção e teatralidade, não de explosões impulsivas de agressividade.
- B)bipolar;
Errada, porque no transtorno bipolar faltam episódios de mania ou hipomania sustentados e os sinais clássicos de alteração global do humor.
- C)da personalidade borderline;
Errada, porque o padrão descrito é episódico e explosivo, enquanto o transtorno de personalidade borderline costuma envolver instabilidade afetiva, medo de abandono e autoimagem instável.
- D)explosivo intermitente;
Certa, porque o caso mostra agressividade impulsiva, recorrente e desproporcional, com arrependimento posterior, compatível com transtorno explosivo intermitente.
- E)da personalidade antissocial.
Errada, porque o transtorno antissocial se associa a violação de normas, manipulação e desprezo persistente pelos direitos alheios, não apenas a surtos de raiva.
Gabarito: D
O quadro descreve um padrão de explosões de raiva recorrentes, desproporcionais ao gatilho, com perda momentânea de controle e arrependimento/vergonha depois. Entre as crises, a pessoa fica aparentemente bem, sem um estado de humor persistentemente elevado, deprimido ou instável como se vê nos transtornos do humor. Isso aponta para o transtorno explosivo intermitente, que é exatamente quando a agressividade aparece em “picos” curtos e intensos, sem planejamento e sem objetivo claro de obter vantagem. No transtorno bipolar, você esperaria episódios de mania ou hipomania: energia aumentada, menos necessidade de sono, euforia ou irritabilidade sustentada, fala acelerada, grandiosidade e comportamentos de risco por dias a semanas. Aqui não há esse bloco clínico. O problema do paciente não é um humor que sobe e desce em episódios prolongados, e sim explosões breves, reativas e desproporcionais. Também não parece um transtorno de personalidade, porque o enunciado destaca que, fora das crises, ele é calmo, gentil, amoroso e mantém muitos amigos. Nos transtornos de personalidade, o padrão costuma ser mais estável e pervasivo ao longo do tempo, afetando várias áreas da vida de forma contínua, e não só em surtos curtos. Na prática, a banca quer que você reconheça a diferença entre “temperamento difícil” e “episódio explosivo episódico”. Pelo DSM-5, o transtorno explosivo intermitente é caracterizado por agressões verbais ou físicas repetidas e desproporcionais, ocorrendo de forma impulsiva e não premeditada. Em prova, se aparecer raiva explosiva, curta, recorrente, com arrependimento depois e sem sintomas típicos de mania, a pista quase sempre vai nessa direção.