Um paciente do sexo masculino procura a polícia dizendo que o vizinho do apartamento ao lado do seu exerce comandos a distância sobre o seu organismo, que fazem com que ele imediatamente sinta vontade de defecar. Do ponto de vista psicopatológico, o sintoma relatado pelo paciente é classificado como:
- A)alucinação cinestésica;
Errada, porque alucinação cinestésica envolve falsa percepção de movimento ou posição do corpo, e aqui o problema é de influência externa sobre a atividade do eu.
- B)delírio de identificação;
Errada, porque delírio de identificação é a crença de que alguém teve sua identidade trocada ou assumida, o que não aparece no enunciado.
- C)alteração da consciência da atividade do eu;
Certa, porque descreve fenômeno de passividade, com vivência de que um agente externo comanda o organismo e os impulsos do paciente.
- D)percepção delirante;
Errada, porque percepção delirante é uma percepção real à qual se atribui significado delirante, e não uma sensação de comando externo sobre o corpo.
- E)delírio somático.
Errada, porque delírio somático é a crença delirante sobre doença ou alteração orgânica, mas aqui o foco é o controle externo da atividade corporal.
Gabarito: C
Na psicopatologia da esquizofrenia, existem sinais em que o paciente deixa de viver seus atos psíquicos como algo “dele” e passa a atribuí-los a uma força externa. Isso acontece com fenômenos de influência, como quando a pessoa sente que seus pensamentos, impulsos, movimentos ou sensações foram impostos por alguém de fora. Parece filme ruim de ficção, mas é um achado clássico da semiologia psiquiátrica. No caso, o paciente diz que o vizinho exerce comandos à distância sobre o seu organismo, fazendo-o sentir vontade de defecar. O ponto central aqui não é uma simples crença falsa sobre o vizinho, mas a vivência de que um agente externo controla sua atividade corporal. Isso caracteriza alteração da consciência da atividade do eu, também chamada de fenômeno de passividade ou delírio de influência. Esse tipo de sintoma é muito lembrado na esquizofrenia e em quadros psicóticos, compondo a perda da fronteira entre o que é produzido pelo próprio eu e o que é vivido como imposto de fora. Em termos doutrinários, é uma das alterações fundamentais da vivência de si, estudada na psicopatologia clássica, especialmente na tradição de Kurt Schneider e na semiologia psiquiátrica. Por isso, o gabarito é a letra C: o paciente não está apenas interpretando mal um sintoma corporal, nem descrevendo uma alucinação, mas relatando que sua vontade e seu organismo estariam sob comando externo. É a famosa sensação de que “não fui eu, foi alguém mexendo nos meus botões”.