Paciente, 56 anos, mora com a esposa e um filho. Comparece ao psiquiatra para consulta. Segundo esposa, paciente tem falado constantemente em se mudar do apartamento onde moram há 25 anos, pois o síndico do prédio está invadindo sua morada em sua ausência. Refere, ainda, que descobriu o fato ao passar pela entrada do prédio e o porteiro e a faxineira se entreolharam e, depois, olharam em sua direção. Paciente sem outras queixas, assim como a esposa do paciente. Exames gerais sem alterações. Realiza suas atividades diárias sem maiores dificuldades, fato confirmado pela esposa. O miniexame do estado mental foi compatível com os anos de estudo. Considerando o caso clínico apresentado, a hipótese diagnóstica é:
- A)Esquizofrenia.
Errada, porque não há alucinações, desorganização do pensamento, sintomas negativos nem deterioração funcional compatíveis com esquizofrenia.
- B)Transtorno delirante.
Certa, pois há delírio persecutório persistente, com funcionamento global preservado e sem outros sinais de psicose ampla.
- C)Transtorno afetivo bipolar.
Errada, porque o caso não traz episódio maníaco, depressivo ou alteração de humor que sustente transtorno afetivo bipolar.
- D)Demência de início precoce.
Errada, pois não há declínio cognitivo, alteração do Mini-Mental nem perda de autonomia que sugiram demência.
Gabarito: B
Aqui o ponto central é identificar um quadro em que existe um delírio bem sistematizado, mas sem o “pacote completo” de uma psicose mais ampla. O paciente acredita que o síndico invade sua casa e interpreta atitudes neutras do porteiro e da faxineira como sinais de perseguição. Isso mostra uma ideia delirante persecutória, com organização e persistência, mas sem prejuízo importante do funcionamento global. No transtorno delirante, a pessoa mantém comportamento relativamente preservado, exame físico e mental sem grandes alterações, e costuma apresentar uma ou poucas crenças falsas, plausíveis na forma, porém erradas no conteúdo. É comum o início mais tardio, como neste caso, e a ausência de sintomas típicos de esquizofrenia, como alucinações marcantes, discurso desorganizado, embotamento afetivo importante ou deterioração social acentuada. Por isso o gabarito é B. O enunciado até “parece” esquisito de primeira, mas não fecha esquizofrenia, porque não há sintomas negativos nem desorganização. Também não sugere transtorno bipolar, já que não há mania, depressão ou oscilação do humor. E demência de início precoce fica fora porque o Mini-Mental está compatível com a escolaridade e a autonomia diária está preservada. Em termos doutrinários, a diferença clássica é essa: delírio isolado e funcionamento relativamente preservado apontam para transtorno delirante; sintomas psicóticos mais amplos e prejuízo funcional mais evidente puxam para esquizofrenia.