Uma mulher de 40 anos de idade, com uma história de relacionamentos interpessoais caóticos, inicia psicoterapia psicanalítica. Ela alterna entre períodos nos quais idealiza o terapeuta e a terapia e períodos de irritação e de raiva, quando nada relativo ao terapeuta ou à terapia é bom, tanto agora quanto no passado. A referida paciente apresenta um quadro que é exemplo do mecanismo de defesa conhecido como
- A)divisão.
Correta: divisão é a separação rígida entre aspectos bons e ruins, explicando a alternância entre idealização e desvalorização do terapeuta.
- B)formação reativa.
Errada: formação reativa é adotar um comportamento oposto ao impulso que a pessoa quer esconder, e não alternar idealização com raiva.
- C)negação.
Errada: negação é recusar reconhecer uma realidade desagradável, o que não é o foco principal do caso.
- D)projeção.
Errada: projeção é atribuir ao outro sentimentos ou impulsos próprios, mas o quadro descrito aponta para visão polarizada do objeto.
- E)anulação.
Errada: anulação é tentar desfazer simbolicamente um pensamento ou ato anterior, sem relação com a oscilação entre idealização e desvalorização.
Gabarito: A
A questão descreve o mecanismo de defesa chamado divisão, muito comum em quadros de personalidade com relações interpessoais instáveis, especialmente quando a pessoa alterna entre ver o outro como totalmente bom e, depois, totalmente mau. É aquele pensamento em preto e branco: hoje o terapeuta é perfeito, amanhã vira o vilão da história. A mente faz isso para lidar com afetos intensos e ambivalência, separando as qualidades boas e ruins em compartimentos diferentes para diminuir a ansiedade. Na clínica, isso aparece com frequência em pacientes que oscilam entre idealização e desvalorização, como no transtorno de personalidade borderline. O ponto central é exatamente a incapacidade de integrar aspectos positivos e negativos da mesma pessoa ou situação. Em vez de admitir que alguém pode ser bom e falho ao mesmo tempo, o sujeito “racha” a percepção em dois polos opostos. Por isso o gabarito é a letra A. A descrição do enunciado, com idealização do terapeuta seguida de irritação e raiva, é quase o retrato clássico da divisão. Em prova, sempre que você ler alternância entre idealização extrema e desvalorização extrema, pense primeiro nesse mecanismo. As outras alternativas até são mecanismos de defesa reais, mas não combinam com a cena. Aqui não há rejeição da realidade, nem atribuição dos próprios impulsos ao outro, nem uma atitude oposta ao desejo inconsciente, nem tentativa de desfazer simbolicamente um ato. O que existe é a separação rígida entre “tudo bom” e “tudo ruim”.