A reconfiguração do poder mundial nas últimas três décadas do Pós-Guerra Fria está estruturalmente relacionada ao impacto do desenvolvimento das áreas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no sistema internacional. Partindo dessa consideração, assinale a afirmativa que caracteriza corretamente a reconfiguração do poder internacional pela incorporação de aspectos cruciais de CT&I.
- A)A Índia, a Coreia do Sul e, especialmente, a China se reposicionaram na economia global graças à geração de conhecimento inovador, o que contribuiu para um processo de desconcentração da inovação mundial e de enfraquecimento relativo do poder dos Estados Unidos, Europa e Japão.
Certa: descreve o reposicionamento de países asiáticos e a desconcentração relativa da inovação, com enfraquecimento do monopólio tecnológico de potências tradicionais.
- B)A expansão das atividades industriais e tecnológicas nos países em desenvolvimento foi estimulada pela incorporação normativa das Trips (medidas de propriedade intelectual relacionadas ao comércio) à Organização Mundial do Comércio, o que universalizou as áreas da CT&I.
Errada: o acordo TRIPS não universalizou CT&I nos países em desenvolvimento; ao contrário, reforçou regras de propriedade intelectual e pode ter dificultado a difusão tecnológica.
- C)O crescimento do protecionismo comercial aberto e as sanções impostas a empresas concorrentes em áreas de fronteira tecnológica, por questões de segurança, facilitou a promoção de atividades agregadores de valor na economia global em países em desenvolvimento.
Errada: protecionismo e sanções em setores de fronteira tecnológica tendem a restringir, não facilitar, a entrada de países em desenvolvimento nas cadeias de maior valor.
- D)O conceito tradicional de poder, associado à capacidade militar, foi fortalecido pelas grandes potências que aplicaram as CT&I em sua indústria bélica, ao passo que os países em desenvolvimento adotaram conceitos e práticas ampliadas de poder (soft power), por estarem excluídos da Revolução Científica e Tecnológica.
Errada: confunde o tema, pois a questão aponta a mudança estrutural do poder via inovação, e não o simples fortalecimento do poder militar tradicional.
- E)Os países em desenvolvimento com economias de renda média continuaram ocupando uma posição subalterna nas relações de poder internacionais, por sua incapacidade de acompanhar o dinamismo produtivo, científico e tecnológico e de inovação das potencias tradicionais.
Errada: generaliza de forma absoluta a subalternidade dos países em desenvolvimento e ignora casos importantes de ascensão tecnológica e produtiva, como os citados no enunciado.
Gabarito: A
A questão trata de como a CT&I mudou a distribuição do poder no sistema internacional depois da Guerra Fria. Hoje, poder não depende só de exército ou território: também depende de quem cria conhecimento, domina tecnologia, controla inovação e consegue transformar isso em vantagem econômica e estratégica. Em outras palavras, quem lidera em chips, biotecnologia, inteligência artificial, telecomunicações e cadeias de valor avançadas passa a mandar mais no jogo global. É por isso que a alternativa A está correta. Índia, Coreia do Sul e, em especial, China ganharam espaço ao investir pesado em educação, indústria, pesquisa e inovação, saindo do papel de meros receptores de tecnologia para produtores de conhecimento e bens de alto valor agregado. Esse movimento contribuiu para uma desconcentração relativa da inovação, antes muito concentrada em Estados Unidos, Europa e Japão, que perderam parte da exclusividade nesse campo. Na lógica das Relações Internacionais, isso significa uma redistribuição do poder material e produtivo. A capacidade de inovar virou ativo estratégico, afetando comércio, competitividade industrial, segurança e até influência diplomática. O tema dialoga com a ideia de que tecnologia não é só ferramenta: ela reorganiza hierarquias internacionais. As demais alternativas escorregam porque exageram, simplificam ou invertem a relação entre CT&I e poder. A banca costuma cobrar justamente essa leitura fina: não basta falar em globalização ou em tecnologia; é preciso entender quem ganhou capacidade de inovar e como isso alterou a hierarquia mundial.