Diante da preocupação com os déficits públicos persistentes e com a elevada dívida pública brasileira, a hipótese dos déficits gêmeos:
- A)não é considerada uma razão para implementação de regras fiscais, apesar de se referir ao aumento sistemático dos déficits orçamentários;
Errada, porque a hipótese dos déficits gêmeos é sim uma justificativa para preocupação com regras fiscais, ao conectar desequilíbrio fiscal e externo.
- B)relaciona-se à presença de déficit público implicando aumento do déficit em transações correntes, devido à tendência de apreciação da taxa de câmbio real;
Certa, pois descreve exatamente a ideia de que o déficit público pode ampliar o déficit em transações correntes, inclusive via apreciação da taxa de câmbio real.
- C)relaciona-se à redução do déficit público nominal e operacional por meio da queda real nos gastos públicos provocada pelas altas taxas de inflação;
Errada, porque a hipótese não trata de queda real de gastos causada por inflação, e sim da ligação entre déficit fiscal e déficit externo.
- D)se refere à redução da arrecadação tributária provocada pela alta taxa de inflação e da defasagem entre o fato gerador do imposto e de sua efetiva arrecadação;
Errada, porque a perda de arrecadação por inflação e defasagem tributária remete ao chamado efeito Tanzi, não à hipótese dos déficits gêmeos.
- E)implica o aumento do déficit operacional juntamente com a redução do déficit primário, resultado do esforço fiscal e da consequente redução da taxa de juros real da economia.
Errada, porque mistura conceitos de déficit operacional, primário e juros reais, sem corresponder à relação central da hipótese dos déficits gêmeos.
Gabarito: B
A hipótese dos déficits gêmeos diz, em linguagem direta, que um desequilíbrio nas contas do governo pode caminhar junto com um desequilíbrio nas contas externas do país. A lógica mais clássica é a seguinte: quando o setor público gasta mais do que arrecada, ele pressiona a demanda agregada, a poupança nacional cai e sobra menos recurso interno para financiar investimento. Resultado: o país tende a precisar mais de poupança externa, o que aparece como déficit em transações correntes. Em muitos modelos, isso também se conecta à apreciação da taxa de câmbio real, que barateia importados e piora o saldo externo. Na prática, pense assim: o governo entra no modo "cartão sem limite" e, lá na frente, a conta externa sente o impacto. Não é uma regra mecânica em todo cenário, mas é a associação teórica clássica cobrada em prova. A FGV costuma cobrar justamente essa ligação entre déficit fiscal e piora do balanço de pagamentos, especialmente via conta corrente. Por isso, o item B está correto: ele expressa a relação entre déficit público e aumento do déficit em transações correntes, com apreciação real do câmbio como canal de transmissão. Essa formulação aparece na literatura de macroeconomia aberta, com base na identidade entre poupança doméstica, investimento e saldo externo.