Suponha que um auditor do Tribunal de Contas esteja realizando um estudo sobre a evolução da dívida pública de um país e obtenha as seguintes informações sobre a economia no ano de 2021. I. O superávit primário é de 1% a.a. II. A razão dívida-PIB atual é de 85%. III. A taxa nominal de juros é de 12% a.a. IV. A taxa de inflação é de 10% a.a. V. O PIB potencial cresce a uma taxa de 2% a.a. Ao considerar que essas informações permanecerão constantes ao longo do tempo, a melhor previsão do pesquisador em relação ao valor da relação dívida-PIB daqui a dois anos será de:
- A)82%;
Errada, porque 82% exagera a queda da razão dívida/PIB; com juros iguais ao crescimento nominal e superávit de 1% do PIB, a redução é menor do que isso.
- B)83%;
Certa, porque a dívida/PIB fica praticamente estável pelos juros iguais ao crescimento nominal e cai um pouco a cada ano devido ao superávit primário, chegando a cerca de 83% em dois anos.
- C)84%;
Errada, porque 84% ainda subestima a redução causada pelo superávit primário ao longo de dois anos.
- D)85%;
Errada, porque 85% seria manter a razão dívida/PIB inalterada, o que não ocorre quando existe superávit primário positivo.
- E)86%.
Errada, porque 86% indicaria aumento da dívida relativa ao PIB, mas o superávit primário e o crescimento nominal igual aos juros impedem essa alta.
Gabarito: B
A ideia central aqui é a dinâmica da dívida pública em relação ao PIB. Em linguagem de prova, a conta básica diz que a razão dívida/PIB sobe com os juros da dívida e cai com o superávit primário. Se o PIB nominal cresce no mesmo ritmo dos juros nominais, a dívida como proporção do PIB fica bem estável, quase como se estivesse “andando de lado”. No enunciado, você tem taxa nominal de juros de 12% e inflação de 10%, além de crescimento do PIB potencial de 2%. Isso sugere crescimento nominal do PIB de 12% ao ano (aproximação clássica de 2% + 10%). Como os juros nominais também são 12%, o efeito dos juros sobre a dívida é neutralizado pelo crescimento do denominador PIB. Sobra o superávit primário de 1% do PIB, que reduz a dívida. Como o PIB do ano seguinte é maior, esse 1% de hoje pesa um pouco menos quando expresso no PIB futuro. Aplicando a lógica ano a ano, a razão dívida/PIB cai cerca de 0,89 ponto percentual por ano, saindo de 85% para algo em torno de 84,1% no primeiro ano e 83,2% no segundo. Por isso, a melhor previsão para daqui a dois anos é 83%, que corresponde à alternativa B. Em questões da FGV, o truque costuma estar exatamente aí: juros iguais ao crescimento nominal não fazem a dívida explodir, e o superávit primário faz a conta descer devagarinho, sem drama e sem milagre fiscal.