Para determinar como a mudança no preço relativo da produção nacional afeta a conta corrente do balanço de pagamentos do país, deve-se questionar, primeiramente, como essa mudança afeta as exportações e as importações desse mesmo país. Nesse sentido, considere as seguintes informações hipotéticas, às quais, por efeitos didáticos, foram impostas severas simplificações: • Os preços da moeda nacional das cestas de despesas representativas nacional e estrangeira são, respectivamente: EP* e P, onde: E = a taxa de câmbio nominal (preço da moeda estrangeira em termos de moeda nacional; P* = nível de preço estrangeiro; e P = nível de preço nacional). • A taxa real de câmbio “q”, definida como o preço da cesta estrangeira em termos da cesta nacional, é, portanto, dada por EP*/P. • Se a cesta representativa de mercadorias e serviços europeus custa € 40 (P*), a cesta representativa brasileira custa R$ 50 (P) e a taxa de câmbio Real/Euro é R$ 6,50 por Euro (E); então o preço da cesta europeia em termos de cestas brasileiras é dada por: EP*/P = [(R$ 6,50/€) x (€ 40/cesta europeia)] / [R$ 50/cesta brasileira]. • Aumento em EP*/P significa depreciação real da moeda nacional em termos da moeda estrangeira Euro “€”. • A conta corrente é a balança comercial do país (ou balança de importações e exportações de bens e serviços, mais os ganhos em investimentos estrangeiros menos os pagamentos a investidores estrangeiros). Tendo por base as informações disponibilizadas e os efeitos das variações das taxas de câmbio nas transações internacionais, analise as afirmativas a seguir. I. Quando EP*/P aumenta, os produtos estrangeiros ficam mais caros em relação aos produtos nacionais: cada unidade de produção nacional agora compra menos unidades de produção estrangeira. Os consumidores estrangeiros responderão a essa mudança de preço (uma depreciação real da moeda nacional), demandando mais de nossas exportações. Essa resposta dos estrangeiros irá, portanto, aumentar as exportações e melhorar a conta corrente nacional. II. Aumento em EP*/P (uma depreciação real da moeda nacional) tende a aumentar o valor de cada unidade de importação em termos de unidades de produção nacional. III. Se a conta corrente melhora ou piora, isso depende de qual efeito da mudança da taxa de câmbio real é dominante – o efeito volume das despesas dos consumidores, que muda as quantidades de exportação e importação, ou o efeito de valor, que muda a produção nacional equivalente de um dado volume de importações estrangeiras. Está correto o que se afirma em
- A)I, II e III.
A alternativa reúne as três proposições. A I está correta porque, quando EP*/P sobe, há depreciação real da moeda nacional, o que torna os bens nacionais relativamente mais baratos para o exterior e tende a elevar as exportações, melhorando a conta corrente. A II também procede, pois a mesma depreciação encarece cada importação em termos de produção nacional; e a III é correta porque o saldo externo resulta da interação entre o efeito de quantidade, que altera os volumes exportados e importados, e o efeito de preço, que altera o custo das importações em moeda doméstica.
- B)I e II, apenas.
Esta alternativa afirma que apenas I e II estariam corretas. O problema é que a III também está certa, porque a melhora ou piora da conta corrente depende de como os volumes comercializados reagem à mudança cambial e de quanto o preço das importações, em moeda nacional, se altera. Ao excluir a III, a alternativa ignora a própria ambiguidade do ajuste externo quando a taxa real de câmbio muda.
- C)I e III, apenas.
Aqui se sustenta que I e III estão corretas, mas II não. O enunciado da II é verdadeiro: com a depreciação real, cada unidade importada custa mais unidades de produção nacional, porque o preço dos bens estrangeiros sobe em moeda doméstica. Assim, a alternativa deixa de fora uma afirmação que decorre diretamente da definição de taxa real de câmbio q = EP*/P.
- D)II e III, apenas.
Esta opção admite II e III, mas rejeita I. Só que a I também está correta: a alta de EP*/P significa que os bens nacionais ficam relativamente mais baratos frente aos estrangeiros, estimulando a demanda externa por exportações e podendo melhorar a conta corrente. Portanto, a alternativa erra ao desconsiderar o efeito competitivo da depreciação real sobre as exportações.
Gabarito: A
A questão trata de taxa de câmbio real, que é a relação entre os preços dos bens nacionais e estrangeiros depois de ajustar pela taxa de câmbio nominal. Em termos simples, quando EP*/P sobe, a moeda nacional perde valor em termos reais, ou seja, os produtos estrangeiros ficam relativamente mais caros e os nacionais ficam relativamente mais competitivos lá fora. É o famoso efeito que faz o exportador sorrir e o importador coçar a cabeça. Por isso, a afirmativa I está correta: com a depreciação real, os estrangeiros tendem a demandar mais exportações do país, porque os bens nacionais ficam relativamente mais baratos para eles. Isso melhora a conta corrente, já que a balança comercial faz parte dela. A afirmativa II também está correta, porque, com a depreciação real, cada unidade importada passa a custar mais em termos de produção nacional. Em outras palavras, para trazer a mesma cesta de fora, o país precisa entregar mais bens e serviços internos. A afirmativa III também está correta, pois o efeito final sobre a conta corrente depende da intensidade de dois canais: o efeito volume, ligado às quantidades exportadas e importadas, e o efeito valor, ligado ao custo em moeda nacional das importações. Esse raciocínio é compatível com a análise padrão de competitividade externa, muito usada em macroeconomia aberta e no estudo do balanço de pagamentos. Assim, o gabarito A está correto.