Considere uma economia doméstica aberta com livre mobilidade de capitais. Caso a condição de Marshall-Lerner não seja satisfeita, é correto afirmar que:
- A)ocorre o overshooting da taxa de câmbio real;
Errada, porque overshooting é um fenômeno de reação excessiva do câmbio no curto prazo, e não consequência da violação da condição de Marshall-Lerner.
- B)o país necessariamente adota a política de câmbio fixo;
Errada, pois a ausência da condição de Marshall-Lerner não obriga o país a adotar câmbio fixo; isso é uma escolha de regime cambial, não uma consequência automática.
- C)a taxa de juros doméstica se eleva em virtude da fuga de capitais do país;
Errada, porque com livre mobilidade de capitais a taxa de juros doméstica não sobe por fuga de capitais nessa relação direta; além disso, a questão trata do efeito comercial do câmbio.
- D)o aumento da aversão ao risco global eleva o prêmio de risco do país;
Errada, porque aumento da aversão ao risco global e prêmio de risco do país pertencem à análise de choques financeiros e risco soberano, não à condição de Marshall-Lerner.
- E)a depreciação da moeda doméstica pode provocar a piora da balança comercial do país.
Certa, porque se a depreciação não gera resposta suficiente das exportações e importações, ela pode piorar a balança comercial em vez de melhorá-la.
Gabarito: E
A condição de Marshall-Lerner diz, em termos simples, quando uma desvalorização da moeda tende a melhorar a balança comercial. Para isso acontecer, a soma das elasticidades-preço da demanda por exportações e importações precisa ser maior que 1. Se essa condição não se verifica, a conta não fecha a favor do comércio exterior. A moeda até pode ficar mais barata, mas a resposta de quantidade das exportações e importações é fraca demais para compensar o efeito-preço. Na prática, isso significa que uma depreciação da moeda doméstica pode encarecer as importações sem gerar aumento suficiente das exportações. Resultado: o valor gasto com importações sobe mais do que o valor recebido com exportações, e a balança comercial piora. É aquele caso clássico em que o remédio parece certo, mas o organismo não responde como o manual promete. Esse raciocínio é o chamado efeito de curva J: no curto prazo, a depreciação pode até piorar o saldo comercial antes de melhorar, justamente porque contratos, hábitos de consumo e rigidez de quantidades atrasam a resposta. Como a questão diz que a condição de Marshall-Lerner não é satisfeita, a depreciação não tem força suficiente para melhorar o comércio exterior e pode, sim, deteriorar a balança comercial. Por isso o gabarito é a alternativa E. Ela traduz exatamente a consequência econômica de uma desvalorização em um contexto em que as elasticidades são baixas: o câmbio muda, mas o comércio não acompanha na mesma velocidade ou intensidade.