O reconhecimento de que a categoria “mulher” não é (e não pode ser) tomada como um sujeito universal na medida em que abre espaço para assimetrias entre as próprias mulheres que se desdobram em silenciamento, colonização e assimilação de umas pelas outras, levou à construção de diferentes perspectivas criminológicas, dentre as quais é possível identificar:
- A)a criminologia queer e a criminologia feminista negra;
Correta, porque reúne a criminologia queer e a criminologia feminista negra, justamente perspectivas que rejeitam o sujeito feminino universal e valorizam diferenças de gênero, sexualidade, raça e classe.
- B)a criminologia feminista negra e a criminologia crítica;
Errada, porque a criminologia crítica é mais ampla e não tem, por si, esse recorte específico sobre a pluralidade das experiências entre mulheres.
- C)a criminologia queer e a criminologia da libertação;
Errada, porque a criminologia da libertação não é a formulação que melhor expressa a crítica à universalização da categoria mulher no campo criminológico.
- D)a criminologia dos direitos humanos e a criminologia da libertação;
Errada, porque a criminologia dos direitos humanos não é a resposta que o enunciado busca para a crítica interna ao feminismo e às diferenças entre mulheres.
- E)a criminologia clínica e a criminologia feminista negra.
Errada, porque a criminologia clínica não se relaciona com essa discussão sobre interseccionalidade, identidade e crítica ao universalismo feminino.
Gabarito: A
A questão parte de uma crítica importante: tratar “mulher” como se fosse uma categoria única apaga diferenças de raça, classe, sexualidade e história de opressão. A criminologia contemporânea, especialmente a vertente feminista, percebeu que não basta falar em “a mulher” em abstrato, porque isso pode silenciar mulheres negras, pobres, lésbicas, trans e outras experiências marcadas por múltiplas vulnerabilidades. Esse olhar mais fino abriu espaço para abordagens mais sensíveis às assimetrias entre as próprias mulheres. É justamente aí que aparecem a criminologia queer e a criminologia feminista negra. A criminologia queer questiona normas rígidas de gênero e sexualidade, mostrando como o sistema penal também produz exclusões contra corpos e identidades dissidentes. Já a criminologia feminista negra, inspirada na interseccionalidade, destaca que gênero não pode ser analisado separado de raça e classe, porque as formas de controle social atingem mulheres de modos diferentes. Por isso, o gabarito é a letra A. O enunciado descreve exatamente uma virada teórica que rejeita a ideia de sujeito feminino universal e reconhece disputas internas e hierarquias entre mulheres. Essa construção é compatível com a perspectiva interseccional, muito trabalhada por autoras como Kimberlé Crenshaw e, no debate criminológico, com a crítica feminista negra e a criminologia queer. Em prova, pense assim: se a questão fala em pluralidade das experiências femininas, interseccionalidade, sexualidade e crítica ao universalismo, você já acende a luz da criminologia queer e da feminista negra. É a criminologia dizendo: “calma, nem toda mulher vive a mesma realidade”.