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Criminologia · FGV · 2021

Questão comentada de Criminologia

“Em março de 2021, foi tornado público o Relatório ‘Mulheres nas audiências de custódia no Rio de Janeiro’, com os dados referentes ao ano de 2019 recolhidos e analisados pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro”. “De acordo com a pesquisa, considerando os 533 casos das mulheres que, no momento da audiência de custódia, atendiam aos critérios objetivos para prisão domiciliar, foi possível observar que 25% das mulheres, apesar de cumprir os requisitos legais, permaneceram presas preventivamente. Verificou-se também que, em decisões judiciais que aplicaram prisão preventiva para mulheres que atendiam aos critérios objetivos para prisão domiciliar, aproximadamente 65,5% contêm alguma referência à prisão domiciliar. Ou seja, essa questão foi de alguma forma introduzida no curso da audiência de custódia e, mesmo assim, essas custodiadas continuaram presas.” Fonte: Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, Diretoria de Estudos e Pesquisas de Acesso à Justiça, Relatório “Mulheres nas audiências de custódia no Rio de Janeiro”, 2019. Disponível em: https://www.defensoria.rj.def.br/uploads/a rquivos/153960d0ac82483580bc117104cac177.pdf Em linha com o pensamento criminológico feminista brasileiro contemporâneo, é correto afirmar que o lastro epistemológico para análise do processo de criminalização de mulheres parte:

Gabarito: E

A criminologia feminista brasileira contemporânea olha para a mulher em conflito com a lei sem cair na tentacao de explicar tudo com um unico rótulo. Em vez de presumir que existe uma “natureza criminosa feminina” ou uma causa unica para o delito, ela parte da complexidade da vida concreta: pobreza, maternidade, dependencia economica, violencia domestica, racismo, uso problemático de drogas e trajetórias de exclusao. Isso muda o foco da pergunta: nao basta saber “qual crime ela cometeu?”, mas “quais circunstancias empurraram essa mulher para essa situacao?”. E ai entra a ideia associada a Elza Pimentel: nao faz sentido procurar uma etiologia criminal unica e universal para as mulheres. Cada caso traz sua historia de vida, suas vulnerabilidades e seus contextos de violacao de direitos. Em muitos processos de criminalizacao feminina, a pratica delitiva pode estar ligada à sobrevivencia da mulher e da familia, ou a situacoes de violencia e coerção atraves das quais ela foi empurrada ao sistema penal. Por isso, o gabarito E esta correto: ele reflete exatamente esse olhar contextual e nao essencialista. A análise criminologica feminista contemporanea rejeita explicacoes simplistas que tratem a criminalidade feminina como desvio moral, imitacao do masculino ou invisibilidade policial apenas. O ponto central e entender o crime como produto de trajetorias marcadas por desigualdade e violencia estrutural. No caso do enunciado, a discussao sobre mulheres que poderiam responder em prisao domiciliar e mesmo assim permanecem presas mostra como o sistema penal tambem opera com vies de genero. A criminologia feminista observa nao so a autoria do fato, mas a forma como as instituições tratam essas mulheres, frequentemente ignorando maternidade, vulnerabilidades e circunstâncias pessoais.

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