Durante uma aula, Pedro externou a seu professor uma dúvida a respeito da correlação existente entre surgimento e desenvolvimento da proteção social, a cargo do Estado, na perspectiva das políticas sociais, e os referenciais de capitalismo industrial e liberalismo. O professor de Pedro esclareceu a dúvida ao observar corretamente que
- A)o capitalismo social implementou a circulação de riquezas e empoderou a classe trabalhadora, que transitou de estágios servis ou semi-servis para o estágio remunerado, o que lhe permitiu influir no pensamento liberal e no delineamento das políticas estatais de cariz social.
Errada, porque não existe um “capitalismo social” como motor histórico inicial da proteção social, e a classe trabalhadora não empoderou o liberalismo a ponto de originar por si só as políticas sociais estatais.
- B)as políticas sociais a cargo do Estado são frutos de um encadeamento lógico do desenvolvimento econômico, do liberalismo e do aprimoramento da democracia, permitindo que classes menos favorecidas e trabalhadores direcionassem o pensamento liberal em prol do seu benefício.
Errada, porque trata a proteção social como resultado linear e pacífico do desenvolvimento econômico e do liberalismo, quando na verdade ela surgiu muito mais por conflito social e pela crise da proteção tradicional.
- C)o liberalismo estimulou a inventividade e empoderou pessoas comuns, o que permitiu que se dissociassem das amarras da proteção social tradicional e da caridade religiosa, que encobriam situações de dominação, contribuindo ainda para que os movimentos sociais se desenvolvessem, daí decorrendo as políticas sociais a cargo do Estado.
Errada, porque o liberalismo clássico não estimulou a dissociação da proteção social tradicional nem foi a base direta dos movimentos sociais que levaram às políticas sociais estatais.
- D)a concentração de renda própria do capitalismo industrial fez que o pensamento liberal passasse a ser oxigenado pelo apoio à proteção social tradicional, desenvolvida primordialmente no ambiente religioso, e, em caráter secundário, pelo estímulo às políticas sociais estatais, de modo que o Estado mínimo transitasse para o Estado social.
Errada, porque inverte a lógica histórica: o liberalismo não passou a apoiar a proteção social tradicional como fundamento do Estado social; ele foi, em regra, criticamente limitado pela pressão social e pela necessidade de intervenção estatal.
- E)a proteção social tradicional, desenvolvida no ambiente familiar ou a partir da caridade religiosa, foi enfraquecida com o capitalismo industrial e o desenvolvimento do liberalismo, que deixou desprotegidos pobres e trabalhadores, inclusive ao apregoar o Estado mínimo, sendo a educação uma das primeiras políticas sociais aceitas pelos liberais.
Certa, porque o capitalismo industrial e o liberalismo enfraqueceram a proteção familiar e religiosa tradicional, deixaram trabalhadores mais vulneráveis e abriram espaço para a aceitação gradual de políticas sociais como a educação.
Gabarito: E
A proteção social não nasceu de um gesto de bondade espontânea do Estado, nem foi um brinde do liberalismo ao povo. Ela surgiu de tensões reais do capitalismo industrial: urbanização acelerada, trabalho assalariado precário, acidentes, desemprego, pobreza e conflitos sociais. Quando o mercado começou a produzir riqueza, mas também muita exclusão, ficou difícil fingir que a caridade privada resolveria tudo. No início, o liberalismo clássico defendia um Estado mínimo e via com desconfiança a intervenção estatal na economia e na vida social. Por isso, a proteção tradicional ficava mais restrita à família, à igreja e à caridade religiosa. Com o avanço das lutas operárias e a pressão social, o Estado passou a assumir gradualmente funções de proteção, primeiro de forma tímida e depois mais estruturada, especialmente com políticas como educação, saúde, previdência e assistência. É aí que a alternativa E acerta. Ela mostra corretamente que o capitalismo industrial e o liberalismo enfraqueceram a proteção social tradicional e deixaram pobres e trabalhadores mais expostos. Também acerta ao destacar que uma das primeiras políticas sociais aceitas pelos liberais foi a educação, porque ela podia ser vendida como investimento em ordem, produtividade e cidadania, sem contrariar tanto a lógica liberal quanto outras políticas mais distributivas. Em resumo: o caminho foi da caridade e da proteção informal para a intervenção estatal, não o contrário. O Estado social aparece como resposta histórica aos limites do mercado e às pressões sociais, e não como um efeito natural e gentil do liberalismo.