Diversos autores apontam características comuns aos problemas públicos para facilitar o processo de identificação, podendo, assim, o analista de políticas categorizar e buscar soluções para novos desafios a partir de problemas anteriores de natureza semelhante. Entretanto, nem todos os problemas públicos compartilham características. No universo de problemas públicos contemporâneos merecem destaque os wicked problems, problemas desestruturados que desafiam continuamente os analistas. Os wicked problems são singulares e diferenciam-se dos demais problemas públicos:
- A)pela dificuldade de serem resolvidos e pelo potencial para criar problemas;
Errada, porque a dificuldade de resolver e o risco de gerar novos problemas podem aparecer em vários problemas públicos, mas não são a marca mais precisa dos wicked problems.
- B)pela complexidade técnica e pelo alto grau de imprevisibilidade, incerteza e risco;
Errada, porque complexidade técnica, imprevisibilidade e incerteza são características possíveis, mas a definição clássica enfatiza mais a interdependência e a ausência de solução definitiva.
- C)pela interligação com vários outros problemas e por não possuírem uma solução correta ou definitiva;
Certa, porque wicked problems costumam estar conectados a vários outros problemas e não têm uma solução única, correta ou final.
- D)por não possuírem clara delimitação de fronteiras e por envolverem bens públicos;
Errada, porque a falta de fronteiras claras pode ocorrer, mas a referência a bens públicos não define especificamente wicked problems.
- E)por envolverem soluções com escolhas trágicas, assim como a redistribuição de riquezas e recursos.
Errada, porque escolhas trágicas e redistribuição de riqueza podem aparecer em políticas complexas, mas não são o traço distintivo central dos wicked problems.
Gabarito: C
Os chamados wicked problems, ou problemas perversos/desestruturados, são aqueles que resistem a soluções simples porque não têm fronteiras bem definidas, envolvem muitos atores e costumam se conectar com outros problemas ao mesmo tempo. Em vez de um “remédio” único, eles exigem tentativa e erro, coordenação e, muitas vezes, escolhas imperfeitas. Na prática, são problemas que parecem mudar de forma enquanto você tenta resolvê-los, quase como gelatina nas mãos. Na literatura de políticas públicas, especialmente em Rittel e Webber, esses problemas são descritos como complexos, ambíguos e sem uma solução final claramente correta. Por isso, o analista não consegue dizer com segurança: “pronto, resolvi”. O máximo que se alcança, muitas vezes, é uma solução satisfatória naquele contexto, naquele momento. É exatamente aí que a alternativa C acerta: os wicked problems se caracterizam pela interligação com vários outros problemas e por não possuírem uma solução correta ou definitiva. Um problema urbano, por exemplo, pode envolver transporte, habitação, segurança, orçamento e desigualdade social ao mesmo tempo. Resolver uma ponta pode piorar outra, e esse efeito em cadeia é típico desse tipo de desafio. Então, guarde a ideia central: wicked problem não é só “problema difícil”. É um problema que não se deixa fechar com resposta única, porque está enredado em vários outros e depende de decisões que nunca são totalmente neutras. Em políticas públicas, isso aparece muito em temas como pobreza, segurança, saúde e meio ambiente.