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furafila
🧠Noções de Administração

Processo Decisório
o tema que atravessa todas as funções do PODC

Decidir é o que o gestor mais faz. Esta aula percorre toda a teoria da decisão administrativa: tipos (programada e não programada, estruturada/semi/não, estratégica/tática/operacional), modelo racional clássico vs racionalidade limitada de Herbert Simon, modelos alternativos (intuitivo, político, lata de lixo, incrementalismo de Lindblom, mixed scanning de Etzioni), decisão em grupo (brainstorming, Delphi, nominal), vieses cognitivos e heurísticas (Kahneman e Tversky - Sistema 1 e 2), ferramentas de apoio (árvore, GUT, AHP, Pareto), e decisão no setor público brasileiro (Decreto 9.203/2017, AIR pela Lei 13.874/2019, LINDB pós-2018, nudges de Thaler).

Aula06 / 12
DisciplinaNoções de Administração
AtualizadoAbr / 2026
Nesta aula

Sumário

Oito módulos sobre o tema mais transversal da Administração. Conceito, tipologia, modelo racional, modelos alternativos, decisão em grupo, vieses cognitivos, ferramentas de apoio e decisão no setor público brasileiro.

  1. Conceito de decisão e processo decisório
    O que é decidir, elementos, ambiente da decisão
    p. 04
  2. Tipos de decisão
    Programada x não programada (Simon); estruturada/semi/não; estratégica/tática/operacional
    p. 06
  3. Modelo racional
    Etapas clássicas + racionalidade limitada de Simon
    p. 09
  4. Modelos alternativos (não-racionais)
    Intuitivo, político, lata de lixo, incrementalismo, mixed scanning
    p. 12
  5. Decisão em grupo
    Vantagens/desvantagens, brainstorming, Delphi, nominal, dialética
    p. 15
  6. Vieses cognitivos e heurísticas
    Sistema 1 x 2 (Kahneman); ancoragem, disponibilidade, representatividade, confirmação, sunk cost
    p. 18
  7. Ferramentas de apoio à decisão
    Árvore, matriz GUT, Pareto, AHP, análise multicritério, custo-benefício
    p. 21
  8. Decisão no setor público brasileiro
    Decreto 9.203/2017, AIR, LINDB pós-2018, nudges
    p. 24
  9. Mapa mental e revisão
    A aula inteira em uma página
    p. 27
  10. Questões comentadas
    10 questões nos pontos campeões
    p. 29
Meta desta aula
Distinguir decisão programada x não programada; aplicar as etapas do modelo racional; reconhecer e operar a racionalidade limitada de Simon; identificar quando usar cada modelo alternativo (intuitivo, político, lata de lixo, incremental, mixed scanning); escolher técnica de decisão em grupo apropriada; reconhecer vieses cognitivos centrais; aplicar ferramentas como árvore, GUT, AHP; entender AIR e nudges no setor público brasileiro.
Antes de começar

O que você vai aprender

01
Conceituar decisão

Decidir é escolher entre alternativas em condição de incerteza, com vistas a um objetivo. O processo decisório atravessa todas as funções do PODC - planejamento, organização, direção e controle envolvem decisões.

02
Tipologia de Simon

PROGRAMADA: rotineira, repetitiva, com procedimento definido (ex.: liberar compra dentro do orçamento). NÃO PROGRAMADA: nova, complexa, sem procedimento (ex.: entrar em novo mercado). Outras dimensões: estruturada/semi/não; estratégica/tática/operacional; sob certeza/risco/incerteza.

03
Modelo racional

Etapas clássicas: identificar problema → definir critérios → ponderar critérios → gerar alternativas → avaliar alternativas → escolher → implementar → monitorar. Pressupõe informação completa e capacidade ilimitada de processamento.

04
Racionalidade limitada (Simon)

Bounded rationality: na prática, decisores têm informação INCOMPLETA, tempo LIMITADO, capacidade cognitiva FINITA. Não maximizam (escolhem a melhor) - SATISFAZEM (escolhem a primeira opção 'boa o suficiente'). Conceito de SATISFICING.

05
Modelos não-racionais

INTUITIVO (decisão por reconhecimento de padrão); POLÍTICO (decisão como negociação entre coalizões - Allison, Cyert e March); LATA DE LIXO/Garbage Can (Cohen-March-Olsen 1972 - confluência aleatória de problemas, soluções, participantes e oportunidades); INCREMENTAL (Lindblom 1959 - "muddling through", pequenos ajustes); MIXED SCANNING (Etzioni 1967 - escaneamento misto, combina racional e incremental).

06
Sistema 1 x Sistema 2 (Kahneman)

Daniel Kahneman (Thinking Fast and Slow 2011): SISTEMA 1 (rápido, automático, intuitivo, propenso a vieses); SISTEMA 2 (lento, deliberado, analítico, mais confiável mas exige esforço). Bons decisores ativam o Sistema 2 quando o assunto é importante.

Dica do Fuffu

Os pontos mais cobrados desta aula são (1) decisão programada x não programada de Simon; (2) etapas do modelo racional; (3) racionalidade limitada / satisficing; (4) modelo lata de lixo. Decora isso e sai bem em qualquer prova.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 01

1 Conceito de decisão e processo decisório

Decidir é o que define o trabalho do gestor. Hoje pode ser sobre orçamento, amanhã sobre uma demissão, depois sobre um lançamento. Decidir bem ou mal acumula resultado ao longo do tempo. Por isso o processo decisório é tema central da Administração.

Definição

Definição clássica de Herbert Simon (Administrative Behavior, 1947): "Tomar uma decisão é selecionar uma alternativa entre várias possíveis, com vistas a alcançar um objetivo." Maximiano sintetiza assim: processo decisório é a sequência de etapas pelas quais um decisor identifica um problema, gera alternativas e escolhe entre elas.

Toda decisão tem três elementos:

  1. Decisor: indivíduo ou grupo que decide.
  2. Alternativas: opções entre as quais escolher.
  3. Critérios: parâmetros para comparar alternativas e escolher uma.

Decisão atravessa todas as funções do PODC

Decisão não é função separada do PODC - é conteúdo de cada função:

  • Planejamento: decidir objetivos, estratégias, alocação de recursos.
  • Organização: decidir estrutura, departamentalização, autoridade.
  • Direção: decidir sobre pessoas, motivação, comunicação.
  • Controle: decidir sobre desvios e ações corretivas.

Por isso Herbert Simon afirmou em 1947 que "administrar é decidir" - frase que sintetiza sua tese de que toda a Administração se resume a uma teoria da decisão.

Ambientes de decisão (3 condições clássicas)

A literatura distingue três ambientes pelo grau de informação disponível sobre as consequências:

AmbienteCaracterísticaExemplo
CertezaDecisor sabe os resultados de cada alternativaAplicar dinheiro em poupança com taxa garantida
RiscoDecisor conhece probabilidades dos resultadosLançar um produto com base em pesquisa de mercado (probabilidade conhecida de sucesso)
IncertezaDecisor não conhece probabilidades dos resultadosReagir a uma crise sem precedente (pandemia, mudança regulatória inesperada)

Algumas bancas acrescentam uma quarta condição:

  • Ambiguidade: o decisor nem sabe qual é o problema. É o tipo mais difícil - ainda mais que a incerteza.

Quanto mais o ambiente é de incerteza ou ambiguidade, menos os modelos racionais funcionam - aí entram modelos intuitivos, políticos e incrementais (Módulo 4).

Variáveis que afetam a decisão

  • Informação disponível: quantidade e qualidade dos dados.
  • Tempo: prazos curtos limitam análise; prazos longos permitem mais alternativas.
  • Recursos: orçamento, pessoal, tecnologia.
  • Pressão e stakeholders: quanto mais atores, mais política a decisão.
  • Cultura organizacional: incentiva risco ou aversão? Centraliza ou descentraliza?
  • Características do decisor: experiência, perfil cognitivo, tolerância ao risco.

Tipos de problemas (Russell Ackoff)

Russell Ackoff distingue:

  • Bem estruturado (puzzle): tem solução única. Ex.: equação matemática.
  • Semi-estruturado: tem várias soluções. Ex.: definir orçamento.
  • Mal estruturado (mess): o próprio problema é fluido. Ex.: combater desigualdade.
Prof. Affonsinho explica, Módulo 02

2 Tipos de decisão

A decisão se classifica por vários critérios. As bancas adoram cobrar todas as classificações - decora todas.

1. Programadas x não programadas (Herbert Simon, 1947)

A tipologia mais cobrada. Simon distinguiu dois tipos polares:

AspectoProgramadaNão programada
FrequênciaRepetitiva, rotineiraNova, única
EstruturaBem estruturadaMal estruturada
ProcedimentoExiste (regra, fluxograma, política)Não existe - exige criação
NívelOperacionalEstratégica
TempoCurtoLongo
Risco / impactoBaixo, reversívelAlto, frequentemente irreversível
Habilidade dominanteTécnicaConceitual
ExemploAprovar compra dentro do orçamento; emitir uma certidão padrãoDecidir abrir uma nova unidade no exterior; reagir a uma crise inesperada

Importante: a maior parte das decisões da organização é PROGRAMADA. As poucas decisões não programadas - mas extremamente impactantes - cabem ao topo. Quanto mais alto o nível, maior a proporção de não programadas.

2. Estruturadas, semi-estruturadas e não estruturadas

Tipologia derivada de Simon e popularizada nos sistemas de informação (Sprague). Equivale grosso modo a programadas/semi/não programadas, mas o termo "estruturada" foca a NATUREZA do problema, não a frequência:

  • Estruturada: variáveis claras, regra "se A, então B". Ex.: aprovar férias dentro do prazo legal.
  • Semi-estruturada: parte rotineira, parte exige julgamento. Ex.: aprovar plano de carreira.
  • Não estruturada: novidade, julgamento intenso, sem fórmula. Ex.: redefinir cultura organizacional.

3. Por nível hierárquico

NívelTipo de decisãoExemplo
EstratégicoNão programada / não estruturadaEntrar em novo mercado, fundir-se com outra empresa, redefinir missão
TáticoSemi-estruturadaAprovar orçamento da área, definir campanha de marketing
OperacionalProgramada / estruturadaAprovar pedido dentro do limite, escalar turnos, comprar insumo

4. Sob certeza, risco e incerteza

Já vista no Módulo 1. Resumo:

  • Certeza: resultados conhecidos.
  • Risco: probabilidades conhecidas.
  • Incerteza: probabilidades desconhecidas.
  • Ambiguidade: o problema é fluido.

5. Por modo de tomada

  • Individual: o decisor é uma pessoa.
  • Em grupo: o decisor é um colegiado (conselho, diretoria, comitê).
  • Hierárquica: superior decide, subordinado executa.
  • Participativa: subordinados consultados antes da decisão.
  • Consensual: todos concordam.
  • Por consentimento: ninguém objeta fortemente (sem necessariamente concordar).

6. Por horizonte temporal

  • Curto prazo: dias a meses.
  • Médio prazo: 1-3 anos.
  • Longo prazo: 3-10+ anos.

7. Por reversibilidade

  • Reversível: pode ser desfeita sem custo significativo.
  • Parcialmente reversível: pode ser desfeita, mas com custo.
  • Irreversível: uma vez tomada, não há retorno (ou o custo é proibitivo). Ex.: vender ativo estratégico, demitir profissional-chave.

Tabela síntese das tipologias

CritérioTiposAutor / referência
Frequência / estruturaçãoProgramada / Não programadaHerbert Simon (1947)
Estrutura do problemaEstruturada / Semi / Não estruturadaSprague; Simon
Nível hierárquicoEstratégica / Tática / OperacionalRobert Anthony (1965)
Informação disponívelCerteza / Risco / Incerteza / AmbiguidadeKnight (1921); Simon
ModoIndividual / Grupo; Hierárquica / Participativa / ConsensualVroom-Yetton (1973)
HorizonteCurto / Médio / Longo prazoAdm geral
ReversibilidadeReversível / Parcialmente / IrreversívelAdm geral

Alerta do Examinador

Pegadinha clássica: confundir "decisão programada" com "decisão programática" (planejada). Programada é REPETITIVA, com procedimento definido. Não tem a ver com previamente planejada. Outra pegadinha: dizer que toda decisão estratégica é programada. Errado - a maioria das estratégicas é NÃO programada (única, sem procedimento). É a maior parte das operacionais que é programada.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 03

3 O modelo racional de decisão

O modelo mais antigo e mais cobrado em prova. Tem origem na economia neoclássica (decisor "homo economicus") e foi formalizado por Herbert Simon - antes de criticá-lo. Pressupõe um decisor que escolhe a melhor alternativa possível com base em análise sistemática.

Pressupostos do modelo racional

  • Problema claro: o decisor sabe exatamente o que quer resolver.
  • Objetivos definidos: sem ambiguidade.
  • Informação completa: o decisor tem acesso a todos os dados relevantes.
  • Capacidade ilimitada de processamento: pode considerar todas as alternativas.
  • Critérios estáveis: as preferências do decisor não mudam ao longo do processo.
  • Maximização: o decisor escolhe a MELHOR alternativa, não uma satisfatória.

As 8 etapas do modelo racional (Robbins)

Versão mais cobrada da literatura:

  1. Identificar o problema: reconhecer que existe uma decisão a ser tomada.
  2. Definir critérios de decisão: o que importa para escolher.
  3. Ponderar critérios: dar pesos a cada critério.
  4. Gerar alternativas: levantar opções viáveis.
  5. Avaliar alternativas: pontuar cada uma em cada critério.
  6. Escolher a melhor alternativa: a com maior pontuação ponderada.
  7. Implementar a decisão: colocar em ação.
  8. Avaliar resultados: monitorar e aprender.

Outras versões da literatura têm 5, 6 ou 7 etapas - mas a essência é a mesma: identificar problema, gerar alternativas, escolher, implementar, avaliar.

A crítica de Herbert Simon: racionalidade limitada

Simon, em Administrative Behavior (1947) e desenvolvido depois com James March (Organizations, 1958), denunciou o modelo racional como idealização que não se sustenta na prática. Os decisores reais enfrentam três limitações:

  • Informação incompleta: não dá tempo de coletar todos os dados.
  • Tempo limitado: a decisão tem prazo - não dá pra analisar indefinidamente.
  • Capacidade cognitiva finita: nossa mente não processa muitas variáveis simultâneas.

Diante dessas limitações, o decisor adota o que Simon batizou de "satisficing" (combinação de "satisfy" e "suffice"): em vez de buscar a MELHOR alternativa (maximizing), busca uma que seja "boa o suficiente". Para o autor, essa decisão satisfatória reflete a racionalidade limitada (bounded rationality) do mundo real.

Simon ganhou o Nobel de Economia em 1978 por essa contribuição. A frase que define o conceito: "O comportamento administrativo é racional, mas dentro de limites cognitivos."

Tabela comparativa: racionalidade total x limitada

AspectoRacionalidade total (clássica)Racionalidade limitada (Simon)
InformaçãoCompletaIncompleta
AlternativasTodas as possíveisAlgumas (que vêm à mente)
AvaliaçãoSistemática e exaustivaOrdem de exame e parar quando "boa o suficiente"
CritérioMAXIMIZAR (escolher a melhor)SATISFICING (escolher a primeira boa o suficiente)
Visão do decisor"Homo economicus""Homo administrativus"
RealismoIdealizadoEmpírico

Implicações práticas da racionalidade limitada

  • Heurísticas dominam: decisores usam atalhos mentais (vamos ver no Módulo 6).
  • Sequência importa: a primeira alternativa "boa" é escolhida - logo, a ordem em que você examina alternativas afeta o resultado.
  • Aspirações são endógenas: o "boa o suficiente" muda com o contexto.
  • Decisões são frequentemente repetidas: cada decisão é parte de série, não evento único.
  • Modelos descritivos têm valor: descrever o que decisores fazem (não o que deveriam fazer) virou campo de estudo.

Limitações do modelo racional - como não ser ingênuo

Mesmo quem ainda usa o modelo racional precisa reconhecer:

  • Critérios podem mudar durante o processo (decisor descobre o que valoriza ao avaliar).
  • Alternativas não estão prontas - precisam ser CRIADAS, não só descobertas.
  • Implementação não é mecânica - exige negociação e ajustes.
  • Custo da decisão racional pode superar benefício (analysis paralysis).

Quando usar o modelo racional

Não é que o modelo racional seja inútil - é que tem condições de aplicação:

  • Decisão estruturada com poucas alternativas claras.
  • Tempo e recursos suficientes para análise.
  • Resultado importante o bastante para justificar o esforço.
  • Critérios estáveis e mensuráveis.
  • Decisor independente (sem coalizões políticas pesadas).

Em condições contrárias (urgência, alta incerteza, problema mal definido, alta política), modelos alternativos performam melhor - vamos vê-los no próximo módulo.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 04

4 Modelos alternativos (não-racionais)

A crítica ao modelo racional gerou várias alternativas teóricas. Cinco modelos centrais caem em prova - decora cada um com o autor e a tese.

1. Modelo intuitivo

Decisão baseada em experiência acumulada e reconhecimento de padrões, sem análise consciente. Não é "chute" - é expertise inconsciente. Gary Klein, em Sources of Power (1998), descreveu como bombeiros, médicos de emergência e militares decidem sob pressão usando o que ele chama de "Recognition-Primed Decision (RPD)".

  • Quando funciona: decisor experiente em domínio estável, com feedback frequente.
  • Quando falha: domínios novos, ambientes em mudança rápida, decisão sem feedback.

Sistema 1 de Kahneman (Módulo 6) opera intuitivamente.

2. Modelo político

Graham Allison (Essence of Decision, 1971), Cyert e March (Behavioral Theory of the Firm, 1963). A organização é vista como uma arena política onde múltiplas coalizões barganham. Decisão é resultado de negociação, não de análise.

  • Cada grupo tem seus interesses.
  • A decisão emerge do equilíbrio (ou da vitória) dos interesses.
  • Critérios podem ser inventados após a decisão para legitimá-la.
  • Comum em decisões com alto impacto distributivo (orçamento, M&A, sucessão).

O modelo político não é cínico - reconhece que organizações são compostas por pessoas com interesses diferentes, e nem sempre há consenso possível.

3. Modelo da Lata de Lixo (Garbage Can - Cohen, March e Olsen, 1972)

Dos modelos não-racionais, o mais cobrado em concurso. Michael Cohen, James March e Johan Olsen (A Garbage Can Model of Organizational Choice, ASQ 1972) descreveram organizações onde a decisão emerge de confluência aleatória de quatro fluxos independentes:

  1. Problemas: questões que precisam de resposta.
  2. Soluções: ideias prontas, em busca de problemas.
  3. Participantes: pessoas que entram e saem das decisões.
  4. Oportunidades de escolha: ocasiões formais para decidir (reuniões, comitês).

Quando esses quatro fluxos se encontram em uma "lata de lixo" (ocasião de decisão), uma decisão é tomada - mas a relação entre problema e solução é mais aleatória do que lógica. Frequentemente, soluções existem antes do problema; ou um problema é "resolvido" só porque um participante o trouxe à reunião.

Aplicabilidade: "anarquias organizadas" - universidades, grandes burocracias, ministérios. Características desses ambientes: preferências ambíguas, tecnologia incerta, participação fluida.

4. Modelo Incremental (Charles Lindblom, 1959)

Charles Lindblom, em The Science of Muddling Through (1959), criticou o modelo racional como impraticável em política pública e propôs o incrementalismo: o decisor compara a nova alternativa apenas com o status quo, fazendo ajustes pequenos e marginais.

Características:

  • Decisões são marginais: pequenas variações sobre o que já existe.
  • Comparação restrita: poucas alternativas, todas próximas do status quo.
  • Múltiplos ciclos: a decisão final emerge de uma série de pequenas decisões.
  • Foco em consensos: reduzir conflito político.

Lindblom batizou o método de "muddling through" ("se virando") - termo que ficou. Em política pública, o orçamento incremental (basear o orçamento do ano que vem no atual + ajustes) é exemplo clássico.

5. Mixed Scanning (Etzioni, 1967)

Amitai Etzioni, em Mixed-Scanning: A Third Approach to Decision-Making (1967), criticou tanto o modelo racional (impraticável) quanto o incremental (conservador demais) e propôs uma terceira via: o escaneamento misto.

A ideia: o decisor faz dois níveis de análise simultâneos:

  • Nível geral (panorâmico): olhar amplo, superficial, com foco em decisões fundamentais (estratégicas).
  • Nível detalhado (focalizado): análise profunda, restrita às áreas críticas identificadas no nível geral.

É como uma câmera com zoom: visão ampla para captar o todo, depois zoom para detalhe onde importa. Etzioni argumentou que assim se evita o paralysis-by-analysis do racional puro e o conservadorismo do incrementalismo.

Outros modelos cobrados

  • Modelo da decisão estruturada (Mintzberg, Raisinghani, Theoret, 1976): estudo empírico de 25 decisões estratégicas. Identificaram 3 fases (identificação, desenvolvimento, seleção) e 7 rotinas - mostrando que mesmo decisões "racionais" são iterativas e desestruturadas no detalhe.
  • Modelo de Vroom-Yetton (1973): já visto na aula 04. Árvore de decisão sobre o modo de decisão (autocrático, consultivo, em grupo).
  • Modelo do contrato (Cyert e March): organização é vista como uma coalizão de coalizões. Decisões reduzem conflitos por meio de "side payments".

Tabela síntese dos modelos

ModeloAutorTese central
RacionalEconomia clássicaMaximização com informação completa
Racionalidade limitadaSimon (1947)Satisficing - "boa o suficiente"
IntuitivoKlein (1998)Reconhecimento de padrões pelo experiente
PolíticoAllison (1971); Cyert-March (1963)Decisão = negociação entre coalizões
Lata de lixo (Garbage Can)Cohen-March-Olsen (1972)Confluência aleatória de problemas, soluções, participantes e ocasiões
IncrementalLindblom (1959)Pequenos ajustes sobre o status quo (muddling through)
Mixed scanningEtzioni (1967)Visão geral + zoom focalizado
Prof. Affonsinho explica, Módulo 05

5 Decisão em grupo

Na maior parte das organizações modernas, decisões importantes são tomadas em grupo - comitês, diretorias, conselhos. O grupo agrega informação, perspectivas, legitimidade. Mas também sofre com fenômenos próprios.

Vantagens da decisão em grupo

  • Mais informação: várias pessoas trazem perspectivas diferentes.
  • Diversidade de alternativas: o grupo gera mais opções que um indivíduo.
  • Maior aceitação: quem participa da decisão tende a apoiá-la depois.
  • Legitimidade: decisões coletivas têm mais peso.
  • Aprendizado: a discussão amplia o conhecimento de todos.

Desvantagens da decisão em grupo

  • Tempo: discussão é mais demorada.
  • Custo: várias pessoas paradas para decidir.
  • Difusão de responsabilidade: ninguém se sente responsável.
  • Dominância: alguém pode dominar a discussão.
  • Pressão para conformidade: minoria silencia.
  • Polarização de grupo: o grupo tende a posições mais extremas que cada indivíduo.
  • Pensamento de grupo (groupthink): Irving Janis (1972) - busca por consenso suprime crítica e leva a decisões catastróficas (Baía dos Porcos, Watergate, Challenger). 8 sintomas: ilusão de invulnerabilidade, racionalização coletiva, ilusão de moralidade, estereótipos do grupo externo, pressão direta sobre dissidentes, autocensura, ilusão de unanimidade, "guardiões da mente" (mindguards).

Técnicas de decisão em grupo

Para mitigar os problemas e potencializar as vantagens, a literatura desenvolveu várias técnicas. Decora as principais - são cobranças certas em prova.

1. Brainstorming (Alex Osborn, 1953)

Geração livre de ideias, com regras claras:

  • Suspender julgamento: nenhuma ideia é criticada durante a fase de geração.
  • Buscar quantidade: muitas ideias - filtra-se depois.
  • Bem-vinda à criatividade: ideias "loucas" são incentivadas.
  • Construir sobre as ideias dos outros: piggyback.

Variantes: brainstorming reverso (gerar problemas), brainwriting (anônimo, escrito), 6-3-5 (6 pessoas, 3 ideias, 5 minutos), online brainstorming.

2. Técnica do Grupo Nominal (Delbecq, Van de Ven, 1971)

Combina silêncio individual com discussão em grupo. Cinco passos:

  1. Cada participante gera ideias silenciosamente (escrito).
  2. Round-robin: cada um apresenta uma ideia por vez.
  3. Discussão clarificadora (sem avaliar).
  4. Votação secreta e individual.
  5. Discussão dos resultados e nova votação se necessário.

Vantagem: reduz dominância e conformismo. Cada um pensa antes de ouvir os outros.

3. Método Delphi (Rand Corporation, anos 1960)

Consulta a especialistas remotamente, em rodadas anônimas. Cada rodada apresenta os resultados da anterior, e os especialistas revisam suas posições. O grupo converge gradualmente. Especialmente útil em problemas técnicos complexos com especialistas dispersos geograficamente. Anonimato evita pressão social.

4. Devil's Advocate (Advogado do Diabo)

Designar um membro (ou subgrupo) para defender posição contrária à dominante, intencionalmente. Força a equipe a explicitar suposições e considerar contra-argumentos. Origem católica (canonização) - a Igreja designava alguém para argumentar contra o candidato a santo. Combate diretamente o groupthink.

5. Investigação Dialética (Mason, 1969)

Variação mais estruturada do devil's advocate. Dois subgrupos preparam recomendações opostas, cada uma com defesa formal. Após debate, o grupo todo decide. Útil quando a decisão é estratégica e há tempo.

6. Reuniões eletrônicas (e-meetings, e-brainstorming)

Tecnologia (Mentimeter, Miro, Zoom + chat anônimo) que permite participação simultânea, anônima, com log automático. Reduz dominância e tempo. Bastante usadas em organizações distribuídas.

Tabela síntese das técnicas

TécnicaFocoQuando usar
BrainstormingGeração de ideiasQuando se quer quantidade e criatividade
Técnica do Grupo NominalGeração + priorizaçãoReduzir dominância de um participante
DelphiConsenso técnico anônimoEspecialistas dispersos, problema complexo
Devil's AdvocateCrítica da decisão dominanteCombater groupthink
Investigação DialéticaConfronto de duas tesesDecisões estratégicas com tempo
Reuniões eletrônicasParticipação simultâneaEquipes distribuídas; anonimato

Pegadinha da Dotôra Soffya

Banca confunde brainstorming com técnica do grupo nominal. Brainstorming é discussão LIVRE, oral, em grupo. Técnica do grupo nominal começa com geração SILENCIOSA e individual, depois round-robin estruturado e votação secreta. Outra confusão típica: Delphi exige especialistas DISPERSOS e ANÔNIMOS - não é técnica de reunião presencial.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 06

6 Vieses cognitivos e heurísticas

Daniel Kahneman e Amos Tversky revolucionaram nossa compreensão da decisão ao mostrar, em série de artigos a partir de 1974, que o cérebro humano usa atalhos mentais (heurísticas) que produzem erros sistemáticos (vieses). O trabalho rendeu o Nobel de Economia a Kahneman em 2002 (Tversky havia morrido).

Sistema 1 e Sistema 2 (Kahneman, 2011)

Em Thinking, Fast and Slow (2011), Kahneman organizou a literatura em uma metáfora de dois sistemas:

AspectoSistema 1 (rápido)Sistema 2 (lento)
VelocidadeAutomático, instantâneoDeliberado, demorado
EsforçoSem esforçoEsforço cognitivo alto
ControleInvoluntárioControlado pela atenção
Tipo de raciocínioIntuitivo, emocional, baseado em padrõesLógico, analítico, baseado em regras
VulnerabilidadeAlta - propenso a viesesBaixa - mais confiável
Quando dominaMaior parte do tempoQuando atenção é mobilizada

A maior parte das nossas decisões diárias é Sistema 1 - eficiente para situações rotineiras. Bons decisores reconhecem quando o Sistema 1 vai falhar e ativam deliberadamente o Sistema 2.

Heurísticas (atalhos mentais úteis, mas falíveis)

Tversky e Kahneman (1974) identificaram 3 heurísticas centrais:

  1. Disponibilidade: estimamos a probabilidade de um evento pela facilidade com que lembramos exemplos. Por isso superestimamos riscos divulgados na mídia (avião) e subestimamos riscos comuns (acidente doméstico).
  2. Representatividade: julgamos pertencimento a uma categoria pela semelhança ao protótipo, ignorando taxas-base. Por isso achamos que alguém "tipo nerd" é mais provável de ser engenheiro de software, mesmo que a estatística mostre o contrário.
  3. Ancoragem e ajuste: usamos um valor inicial (âncora) e ajustamos a partir dele - mas o ajuste é sempre insuficiente. Por isso negociadores propõem âncoras altas: o resultado fica mais perto da âncora.

Vieses centrais cobrados em prova

Lista que cai em prova de Adm e RH:

  • Viés da confirmação: buscamos só evidências que confirmam o que já achamos; ignoramos contraditórias.
  • Viés do excesso de confiança: superestimamos nosso conhecimento, capacidade ou previsão.
  • Viés do retrospecto (hindsight bias): depois que algo aconteceu, achamos que era óbvio - "eu sabia que ia acontecer".
  • Viés do status quo: preferimos manter as coisas como estão, mesmo quando mudar é melhor.
  • Viés da aversão à perda (Tversky-Kahneman, prospect theory 1979): a dor de perder R$100 é maior que o prazer de ganhar R$100. Cerca de 2x mais.
  • Viés do custo afundado (sunk cost): continuamos investindo em projeto fadado ao fracasso porque "já gastamos muito".
  • Viés do ponto de referência (framing): a mesma decisão é vista diferente conforme o enquadramento ("90% sobrevivem" x "10% morrem").
  • Viés da disponibilidade: ver acima.
  • Viés da representatividade: ver acima.
  • Viés da ancoragem: ver acima.
  • Viés do otimismo: subestimamos riscos pessoais.
  • Viés da escalada de comprometimento: aumentamos esforço em um curso de ação que está fracassando, em vez de mudar.
  • Viés do grupo (groupthink): já visto no Módulo 5.
  • Viés da atribuição: explicamos sucesso próprio por mérito, fracasso por circunstância. O contrário para os outros.

Viés cognitivo é universal - todo decisor humano tem. Reconhecer não elimina, mas ajuda a mitigar.

Como mitigar vieses

  • Pré-mortem (Klein): antes de decidir, imagine que a decisão fracassou catastroficamente. Por quê? Identifica riscos antes de cometê-los.
  • Devil's advocate: nomeia crítico oficial.
  • Análise estatística (taxas-base): força considerar dados, não impressões.
  • Decisão em grupo bem estruturada: técnica nominal, Delphi.
  • Lista de verificação (checklist): Atul Gawande, em Checklist Manifesto, defende para reduzir erros.
  • Prazo de reflexão: dormir antes de decidir.
  • Coaching e feedback: gente que aponta cegueiras.

Prospect Theory (Kahneman e Tversky, 1979)

A teoria que rendeu o Nobel a Kahneman. Em Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk (Econometrica, 1979), Kahneman e Tversky mostraram empiricamente que decisões sob risco violam axiomas da Teoria da Utilidade Esperada (modelo racional clássico). Achados centrais:

  • Aversão à perda: perdas pesam ~2x mais que ganhos equivalentes.
  • Ponto de referência: avaliamos resultados como ganhos ou perdas em relação a um ponto, não em valor absoluto.
  • Buscamos risco para evitar perda: pessoas correm risco para tentar evitar perda certa (apostam mais para "recuperar o prejuízo").
  • Evitamos risco para garantir ganho: preferimos ganho certo a ganho maior incerto.
  • Sobreposição de probabilidades pequenas: superestimamos eventos raros (loteria; risco de avião).

Implicação prática: o jeito como uma decisão é apresentada (framing) afeta enormemente o que escolhemos. "Cirurgia com 90% de sobrevivência" é mais aceita que "cirurgia com 10% de mortalidade" - mesmo sendo a mesma coisa.

Bate-papo com o Seu Teoffilo

Dois decisores experientes operam de modos opostos com vieses. O bom líder desconfia da própria primeira impressão e busca evidência contrária ativamente. O mau líder se apega à primeira impressão e descarta evidência inconveniente. Reconhecer vieses cognitivos não é fraqueza - é maturidade. Em prova: alternativas que afirmam que "o decisor experiente nunca tem vieses" estão erradas. Todo decisor humano tem vieses; o que muda é o grau de consciência sobre eles.

Prof. Affonsinho explica, Módulo 07

7 Ferramentas de apoio à decisão

Para reduzir vieses e estruturar análises complexas, a literatura desenvolveu várias ferramentas. As mais cobradas em prova:

1. Árvore de decisão

Diagrama em forma de árvore que mapeia decisões sequenciais. Cada nó representa uma decisão (caixinha quadrada) ou um evento de chance (círculo). Cada ramo representa uma alternativa ou um resultado possível, com probabilidade associada.

Calcula o valor esperado de cada ramo: Valor Esperado = Σ (probabilidade × resultado). Decora o ramo com maior valor esperado.

Útil quando há decisões em cadeia (decidir hoje afeta decisões futuras) e probabilidades estimáveis.

2. Matriz GUT (Gravidade, Urgência, Tendência)

Ferramenta de priorização de problemas. Avalia cada problema em 3 critérios, em escala de 1 a 5:

  • G - Gravidade: o quanto impacta a organização se não resolver.
  • U - Urgência: o quanto exige ação imediata.
  • T - Tendência: como vai evoluir se não fizermos nada (piora rápido?).

Pontuação final: GUT = G × U × T (multiplicação, não soma). Vai de 1 a 125. Prioriza-se o de maior pontuação. Origem na engenharia de qualidade japonesa, popularizada por Charles Kepner e Benjamin Tregoe.

3. Diagrama de Pareto (princípio 80/20)

Vilfredo Pareto (economista italiano) observou que 80% da riqueza estava concentrada em 20% da população. Aplicado à decisão: 20% das causas geram 80% dos problemas. Em diagrama, lista-se as causas em ordem decrescente de frequência (gráfico de barras + linha cumulativa). Mostra onde concentrar esforço.

4. AHP - Analytic Hierarchy Process (Thomas Saaty, 1980)

Método de análise multicritério mais sofisticado. Decompõe um problema em hierarquia (objetivo → critérios → subcritérios → alternativas) e usa comparações pareadas (cada par de critérios é comparado em escala de 1 a 9) para derivar pesos. Combina pesos para chegar à melhor alternativa.

Vantagens: estrutura problemas complexos; aceita critérios qualitativos; calcula índice de consistência (verifica se as comparações foram coerentes). Desvantagem: trabalhoso, exige software.

5. Análise de Custo-Benefício

Compara custos totais (financeiros e não financeiros) com benefícios totais ao longo do tempo. Usa-se VPL (Valor Presente Líquido), TIR (Taxa Interna de Retorno), Payback. Fundamental em decisões de investimento e em avaliação de políticas públicas.

6. Matriz BCG e Matriz GE/McKinsey

Já vistas na aula 02 de Planejamento Estratégico. São ferramentas de decisão sobre PORTFÓLIO de negócios.

7. Matriz SWOT (já vista na aula 02)

Para decisões estratégicas em condição de incerteza moderada. Cruza forças/fraquezas/oportunidades/ameaças e gera 4 posturas estratégicas (desenvolvimento, manutenção, crescimento, sobrevivência).

8. PERT/CPM

Ferramenta de gerenciamento de projetos para decidir sequência e duração de atividades. PERT (Program Evaluation Review Technique) trabalha com tempos probabilísticos; CPM (Critical Path Method) com tempos determinísticos. Identifica o caminho crítico - sequência de tarefas que define o prazo total.

9. Análise multicritério (em geral)

  • Pontuação ponderada: cada critério tem peso, cada alternativa pontua, soma-se ponderado.
  • Matriz de Pugh: avalia alternativas em relação a um padrão de referência.
  • TOPSIS: método baseado em distância ao ideal e ao anti-ideal.
  • ELECTRE: métodos baseados em superação (outranking).
  • Análise SWOT cruzada (TOWS): já vista na aula 02.

10. 5W2H

Lista de 7 perguntas para estruturar decisão e plano de ação:

  • What: o que será feito?
  • Why: por que será feito?
  • Where: onde será feito?
  • When: quando será feito?
  • Who: quem fará?
  • How: como será feito?
  • How much: quanto custará?

Não é técnica de decisão estratégica - é de execução de decisão. Mas garante que ninguém esquece de definir nada importante.

11. Sistemas de Apoio à Decisão (SAD / DSS)

Sistemas de informação que dão suporte computacional à decisão. Tipos:

  • SAD orientado a dados: análise de bases (data warehouse, OLAP).
  • SAD orientado a modelos: simulação, otimização.
  • SAD orientado a documentos: gestão de conhecimento.
  • SAD orientado a comunicação: groupware.
  • SAD inteligente: IA, machine learning.

Tabela síntese das ferramentas

FerramentaQuando usar
Árvore de decisãoDecisões em cadeia com probabilidades estimáveis
GUTPriorizar problemas (G × U × T)
ParetoIdentificar 20% de causas que geram 80% dos problemas
AHPMulticritério complexo com comparações pareadas
Custo-benefícioInvestimentos; políticas públicas
BCG / GEDecisão sobre portfólio de negócios
SWOTDiagnóstico estratégico
PERT / CPMGerenciamento de projetos
5W2HEstruturar plano de ação
Prof. Affonsinho explica, Módulo 08

8 Decisão no setor público brasileiro

O processo decisório no setor público brasileiro tem amarras específicas. A decisão é amarrada pela lei (princípio da legalidade), passa por procedimentos formais, é fiscalizada por múltiplos órgãos e tem consequências para o gestor (responsabilização administrativa, civil e penal).

Decreto 9.203/2017 - governança

Já visto nas aulas 02 e 05. Estabelece princípios e mecanismos de governança da Administração Pública Federal. Para a decisão, vale destacar os princípios (Art. 3):

  • Capacidade de resposta.
  • Integridade.
  • Confiabilidade.
  • Melhoria regulatória.
  • Prestação de contas e responsabilidade.
  • Transparência.

Esses princípios devem orientar todas as decisões dos órgãos federais.

LINDB pós-2018 (Lei 13.655/2018) - decisão baseada em consequências

A Lei 13.655/2018 acrescentou os Arts. 20 a 30 à LINDB (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro). Mudança radical na forma como decisões públicas são tomadas. Trechos essenciais:

  • Art. 20: nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão.
  • Art. 21: a decisão que invalidar ato, contrato, ajuste ou processo administrativo deverá indicar de modo expresso suas consequências jurídicas e administrativas.
  • Art. 22: na interpretação de normas sobre gestão pública, levar em conta os obstáculos e as dificuldades reais do gestor e as exigências das políticas públicas a seu cargo.
  • Art. 28: agente público responderá pessoalmente apenas em caso de DOLO ou ERRO GROSSEIRO. Reduziu o medo da decisão inovadora.

Análise de Impacto Regulatório (AIR)

A AIR é instrumento de decisão obrigatório para edição, alteração ou revogação de atos normativos de interesse geral. Marcos:

  • Lei 13.874/2019 (Lei da Liberdade Econômica): institui a AIR.
  • Decreto 10.411/2020: regulamenta a AIR.
  • Decreto 10.139/2019: revisão e consolidação dos atos normativos inferiores.

A AIR exige análise prévia das alternativas, consultas, estimativa de custos e benefícios, e fundamentação da escolha. Visa reduzir regulação ineficiente e excesso burocrático.

Conteúdo mínimo da AIR (Decreto 10.411/2020):

  1. Identificação do problema regulatório.
  2. Identificação dos atores afetados.
  3. Identificação da fundamentação legal.
  4. Definição dos objetivos.
  5. Descrição das possíveis alternativas (incluindo a opção de não regular).
  6. Estimativa dos custos e benefícios de cada alternativa.
  7. Comparação das alternativas.
  8. Escolha da alternativa com justificativa.
  9. Estratégia de implementação, fiscalização e monitoramento.

Outras leis que afetam decisão pública

  • Lei 13.726/2018 (desburocratização): dispensa autenticações, reconhecimentos, fotocópias para o cidadão.
  • Lei 14.133/2021 (nova Lei de Licitações) Art. 18: exige Estudo Técnico Preliminar antes da contratação - documento que estrutura a decisão.
  • Lei 9.784/1999: processo administrativo federal - exige fundamentação, contraditório, motivação.
  • CF Art. 37, princípio da impessoalidade: decisão pública deve ser pelo interesse público, não pelo benefício de pessoas específicas.

Nudges - "empurrõezinhos" comportamentais

Conceito de Richard Thaler e Cass Sunstein, em Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness (2008). Thaler ganhou o Nobel de Economia em 2017. Nudge é uma alteração no contexto da decisão (na "arquitetura da escolha") que orienta o comportamento sem proibir nada e sem mudar incentivos econômicos significativos.

Exemplos clássicos:

  • Adesão automática à previdência complementar (com possibilidade de saída): adesão muito maior que com opt-in. No Brasil: Funpresp adota essa lógica.
  • Doação de órgãos como padrão (com saída): países que adotam têm taxas mais altas de doação.
  • Fotos de pulmões em maços de cigarro: dispara aversão à perda.
  • Posicionamento de comida saudável em restaurantes (à altura dos olhos).
  • Lembretes por SMS de consultas médicas: reduz no-show.

Thaler chamou a abordagem de "paternalismo libertário": orienta o comportamento (paternalismo) sem restringir liberdade (libertário).

Comportamental no setor público brasileiro

O Brasil tem iniciativas crescentes de aplicação de ciência comportamental:

  • GNova/ENAP: Laboratório de Inovação em Governo. Aplica nudges em políticas públicas federais.
  • LIPID (Laboratório de Investigação em Direito e Políticas Públicas).
  • Receita Federal: usa nudges em comunicação para aumentar adimplência tributária.
  • INSS: simplificação de jornadas digitais reduziu tempo de concessão de benefícios.

O vilão da aula: PhD em Concursos

Esse vilão decora teses minoritárias. Cuidado: ele vai te dizer que o modelo lata de lixo é universal, ou que Lindblom criou o satisficing (não, Lindblom criou o incrementalismo; satisficing é Simon). Ele cobra autor exato com obra exata e ano - vale memorizar pelo menos: Simon (1947, racionalidade limitada), Lindblom (1959, incrementalismo), Cohen-March-Olsen (1972, lata de lixo), Etzioni (1967, mixed scanning), Kahneman-Tversky (1979, prospect theory), Thaler-Sunstein (2008, nudge). Esses 6 autores e datas matam a maior parte das pegadinhas.

A aula em uma página

Mapa mental

Processo Decisório

Conceito (Mód. 1)

  • Decidir = escolher entre alternativas em incerteza
  • Atravessa todas as funções do PODC
  • Ambientes: certeza, risco, incerteza, ambiguidade
  • Simon: "administrar é decidir"

Tipos de decisão (Mód. 2)

  • Programada (rotineira) x Não programada (única) - Simon
  • Estruturada / Semi / Não estruturada
  • Por nível: estratégica / tática / operacional
  • Por modo: individual / grupo; certeza / risco / incerteza

Modelo racional (Mód. 3)

  • Etapas: identificar problema → critérios → ponderar → alternativas → avaliar → escolher → implementar → monitorar
  • Simon: racionalidade limitada (bounded rationality)
  • Satisficing - "boa o suficiente"
  • Maximizar (clássico) x Satisfazer (Simon)

Modelos não-racionais (Mód. 4)

  • Intuitivo (Klein) - reconhecimento de padrões
  • Político (Allison) - negociação entre coalizões
  • Lata de lixo (Cohen-March-Olsen 1972) - 4 fluxos aleatórios
  • Incremental (Lindblom 1959) - "muddling through"
  • Mixed scanning (Etzioni 1967) - escaneamento misto

Decisão em grupo (Mód. 5)

  • Vantagens: mais informação, aceitação, legitimidade
  • Desvantagens: tempo, groupthink (Janis 1972)
  • Brainstorming (Osborn) - geração livre
  • Técnica do Grupo Nominal - silêncio + round-robin + voto
  • Delphi - especialistas remotos anônimos
  • Devil's advocate; investigação dialética

Vieses cognitivos (Mód. 6)

  • Sistema 1 (rápido, intuitivo) x Sistema 2 (lento, analítico)
  • Heurísticas: disponibilidade, representatividade, ancoragem
  • Vieses: confirmação, excesso de confiança, sunk cost, framing, status quo
  • Prospect Theory (Kahneman-Tversky 1979): aversão à perda
  • Mitigação: pré-mortem, devil's advocate, checklists

Ferramentas (Mód. 7)

  • Árvore de decisão (valor esperado)
  • GUT - Gravidade × Urgência × Tendência
  • Pareto - 20% das causas / 80% dos problemas
  • AHP (Saaty 1980) - multicritério com comparações pareadas
  • 5W2H - estruturar plano

Setor público (Mód. 8)

  • Decreto 9.203/2017 - governança - 6 princípios
  • LINDB pós-2018 (Lei 13.655) - Arts. 20-30 - decisão por consequências
  • AIR - Lei 13.874/2019 + Decreto 10.411/2020
  • Nudges (Thaler-Sunstein 2008) - paternalismo libertário
  • GNova/ENAP, LIPID - laboratórios de inovação no Brasil
Antes da prova

Revisão relâmpago

01
"Administrar é decidir"

Frase de Herbert Simon (1947). Decisão atravessa todas as funções do PODC.

02
Programada x Não programada

Programada = rotineira, com procedimento, operacional. Não programada = nova, sem procedimento, estratégica.

03
Modelo racional

8 etapas (Robbins): problema → critérios → ponderação → alternativas → avaliar → escolher → implementar → monitorar.

04
Racionalidade limitada (Simon)

Bounded rationality. Decisor não maximiza - SATISFAZ (satisficing). Informação incompleta, tempo limitado, capacidade finita.

05
Lata de lixo

Cohen-March-Olsen (1972). 4 fluxos: problemas, soluções, participantes, oportunidades de escolha. Confluência aleatória.

06
Incrementalismo

Lindblom (1959). Pequenos ajustes sobre status quo. "Muddling through". Comum no orçamento público.

07
Mixed scanning

Etzioni (1967). Combina racional (visão geral) com incremental (foco detalhado).

08
Sistema 1 x Sistema 2 (Kahneman)

Sistema 1 = rápido, automático, propenso a vieses. Sistema 2 = lento, analítico, mais confiável.

09
3 heurísticas (Tversky-Kahneman)

Disponibilidade, representatividade, ancoragem. Vieses centrais: confirmação, sunk cost, framing, aversão à perda.

10
Brainstorming x Grupo Nominal x Delphi

Brainstorming = livre, oral. Grupo nominal = silêncio + round-robin + voto. Delphi = especialistas remotos anônimos.

11
GUT, Pareto, AHP

GUT = G×U×T (priorizar). Pareto = 80/20. AHP (Saaty) = multicritério com comparações pareadas.

12
Setor público brasileiro

Decreto 9.203/2017, LINDB pós-2018 (decisão por consequências), AIR (Lei 13.874/2019), nudges (Thaler).

Hora da prática

10 questões comentadas

Questões nos pontos campeões da aula. Cada uma com gabarito e análise do Prof. Affonsinho. Estilo de cobrança das principais bancas (CESPE/Cebraspe, FGV, FCC, Vunesp).

Q1

Questão 01 · Comentada

Enunciado. Herbert Simon, ao estudar o processo decisório nas organizações, propôs que as decisões podem ser classificadas em duas categorias polares. Sobre essa classificação, é correto afirmar:

  1. A) As decisões programadas são únicas e exigem julgamento estratégico, sendo típicas do nível organizacional mais alto.
  2. B) As decisões não programadas são repetitivas e contam com procedimentos predefinidos, sendo típicas do nível operacional.
  3. C) Decisões programadas são repetitivas, rotineiras e contam com procedimentos predefinidos, enquanto decisões não programadas são novas, complexas e exigem julgamento, sem procedimento estabelecido.
  4. D) Toda decisão estratégica é programada, e toda decisão operacional é não programada.
  5. E) A maior parte das decisões em uma organização é não programada.

Gabarito: C

Prof. Affonsinho comenta

Tipologia clássica de Simon. Programada = repetitiva. Não programada = nova. Banca adora inverter as características.

  • A errada: Inversão. PROGRAMADA é repetitiva e rotineira (não única). Não programada é única.
  • B errada: Inversão. NÃO programada é nova e exige julgamento, sem procedimento. Programada é repetitiva.
  • C CORRETA: Definição precisa de Simon. Decora as características-chave: programada = repetitiva + procedimento + operacional. Não programada = nova + julgamento + estratégica.
  • D errada: Inversão. Estratégica → tipicamente NÃO programada. Operacional → tipicamente PROGRAMADA. A questão inverte.
  • E errada: A maior parte das decisões é PROGRAMADA (rotineira). Não programadas são poucas mas alto-impacto. Quanto mais alto o nível, maior a proporção de não programadas - mas elas são minoria do volume total.

Tese central: Simon (1947): PROGRAMADA = repetitiva, rotineira, com procedimento, típica do operacional. NÃO PROGRAMADA = nova, complexa, exige julgamento, típica do estratégico.

Q2

Questão 02 · Comentada

Enunciado. Acerca do modelo racional de decisão e da racionalidade limitada de Simon, julgue: A racionalidade limitada (bounded rationality) implica que o decisor real, diante de informação incompleta e capacidade cognitiva finita, busca a alternativa MAXIMIZADORA - aquela que oferece o maior retorno esperado dentre todas as possíveis. (Certo / Errado)

Gabarito: Errado

Prof. Affonsinho comenta

Inversão clássica. A racionalidade limitada implica SATISFICING (escolher uma opção 'boa o suficiente'), NÃO maximização. Maximização é do modelo racional clássico.

  • E ERRADO: Inversão direta. A racionalidade limitada (Simon, 1947) implica que o decisor não consegue maximizar (escolher a melhor entre todas) por limitações de informação, tempo e capacidade cognitiva. Em vez disso, adota o SATISFICING - examina alternativas em ordem e escolhe a primeira 'boa o suficiente'. Maximização é do modelo racional CLÁSSICO, justamente o que Simon criticou. Pegadinha clássica que troca os conceitos.

Tese central: Racionalidade limitada (Simon 1947): decisor não MAXIMIZA - SATISFAZ (satisficing). Maximização pertence ao modelo racional clássico, que Simon criticou.

Q3

Questão 03 · Comentada

Enunciado. Cohen, March e Olsen propuseram, em 1972, um modelo que descreve a tomada de decisão em organizações caracterizadas como 'anarquias organizadas'. Esse modelo é conhecido como:

  1. A) Modelo racional limitado.
  2. B) Modelo da lata de lixo (garbage can model).
  3. C) Modelo incrementalista (muddling through).
  4. D) Modelo do mixed scanning.
  5. E) Modelo da racionalidade absoluta.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Cohen-March-Olsen (1972). Modelo da lata de lixo. 4 fluxos aleatórios: problemas, soluções, participantes, oportunidades de escolha. Aplicado a 'anarquias organizadas' - universidades, ministérios.

  • A errada: Racionalidade limitada é de Herbert Simon (1947), não de Cohen-March-Olsen.
  • B CORRETA: Modelo da lata de lixo (Garbage Can Model of Organizational Choice, ASQ 1972). 4 fluxos independentes que se encontram aleatoriamente: problemas, soluções, participantes, oportunidades de escolha.
  • C errada: Incrementalismo é de Charles Lindblom (1959), não de Cohen-March-Olsen.
  • D errada: Mixed scanning é de Amitai Etzioni (1967), não de Cohen-March-Olsen.
  • E errada: 'Racionalidade absoluta' não é nome de modelo. O modelo racional clássico pressupõe racionalidade total/perfeita - mas o nome 'absoluta' não é o termo técnico.

Tese central: Modelo da lata de lixo (Cohen-March-Olsen 1972): decisão emerge de confluência aleatória de 4 fluxos (problemas, soluções, participantes, oportunidades). Para 'anarquias organizadas'.

Q4

Questão 04 · Comentada

Enunciado. Charles Lindblom (1959), em sua crítica ao modelo racional, propôs uma abordagem alternativa para decisões em política pública. Sobre essa abordagem, é correto afirmar:

  1. A) Lindblom propôs o satisficing como critério de escolha em situações de informação incompleta.
  2. B) Lindblom propôs o modelo incrementalista, em que decisões são tomadas por pequenos ajustes sobre o status quo (muddling through), comparando alternativas próximas e evitando rupturas.
  3. C) Lindblom propôs o método Delphi para consulta a especialistas anônimos.
  4. D) Lindblom propôs a teoria das prospectivas (prospect theory), demonstrando aversão à perda.
  5. E) Lindblom defendeu a maximização da utilidade esperada como critério único de decisão racional.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Lindblom (1959 - The Science of Muddling Through). Incrementalismo. Pequenos ajustes sobre status quo. Comparação restrita.

  • A errada: Satisficing é de Herbert Simon, não de Lindblom. Pegadinha clássica - banca confunde os autores.
  • B CORRETA: Definição precisa do incrementalismo. Pequenos ajustes, comparação restrita, foco em consensos, múltiplos ciclos.
  • C errada: Delphi foi desenvolvido pela Rand Corporation (anos 1960), não por Lindblom.
  • D errada: Prospect theory é de Kahneman e Tversky (1979), não de Lindblom.
  • E errada: Lindblom CRITICOU a maximização racional - ela é justamente o oposto do que ele defendeu. Atacou o modelo racional como impraticável em política pública.

Tese central: Lindblom (1959): INCREMENTALISMO / 'muddling through'. Pequenos ajustes sobre o status quo, comparação restrita, busca de consenso. Crítica ao modelo racional.

Q5

Questão 05 · Comentada

Enunciado. Daniel Kahneman, em 'Thinking, Fast and Slow' (2011), descreveu o pensamento humano como operando em dois sistemas. Sobre esses sistemas, é correto afirmar:

  1. A) O Sistema 1 é lento, deliberado e analítico, sendo o principal responsável por decisões complexas.
  2. B) O Sistema 2 é rápido, automático e intuitivo, sendo o mais propenso a vieses cognitivos.
  3. C) O Sistema 1 opera de forma rápida, automática e intuitiva, sendo mais propenso a vieses; o Sistema 2 opera de forma lenta, deliberada e analítica, sendo mais confiável mas exige esforço cognitivo.
  4. D) Os dois sistemas são equivalentes em velocidade e precisão.
  5. E) Apenas o Sistema 1 é utilizado por pessoas treinadas em decisão estratégica.

Gabarito: C

Prof. Affonsinho comenta

Distinção dos 2 sistemas de Kahneman. Sistema 1 = rápido/intuitivo/sujeito a vieses. Sistema 2 = lento/analítico/mais confiável.

  • A errada: Inversão. Sistema 1 é RÁPIDO, AUTOMÁTICO e INTUITIVO. Sistema 2 é lento e analítico.
  • B errada: Inversão. Sistema 2 é LENTO e DELIBERADO. Sistema 1 é o rápido e propenso a vieses.
  • C CORRETA: Definição precisa. Sistema 1 = rápido, automático, intuitivo, propenso a vieses. Sistema 2 = lento, deliberado, analítico, mais confiável mas exige esforço.
  • D errada: São OPOSTOS em velocidade e propensão a erro - não equivalentes.
  • E errada: Pessoas treinadas usam AMBOS, ativando deliberadamente o Sistema 2 quando o assunto é importante. Sistema 1 nunca desliga - opera em paralelo.

Tese central: Kahneman (2011): SISTEMA 1 (rápido, automático, intuitivo, propenso a vieses) x SISTEMA 2 (lento, deliberado, analítico, mais confiável). Bons decisores ativam Sistema 2 em decisões importantes.

Q6

Questão 06 · Comentada

Enunciado. Sobre o viés do custo afundado (sunk cost), julgue: O viés do custo afundado leva o decisor a continuar investindo em um projeto fracassado porque já gastou recursos significativos nele, mesmo quando a análise prospectiva indica que abandoná-lo seria a melhor escolha. (Certo / Errado)

Gabarito: Certo

Prof. Affonsinho comenta

Sunk cost é viés clássico. O decisor 'joga bom dinheiro atrás de mau' - persiste em curso de ação porque já investiu, em vez de avaliar prospectivamente.

  • C CERTO: Definição precisa do viés do custo afundado. Em economia, sunk cost (custo já gasto e irrecuperável) é IRRELEVANTE para decisão futura - só importa o que vem PELA FRENTE. Mas o decisor humano vê o sunk cost como justificativa para continuar ('já gastei muito, não posso desistir'), gerando escalada de comprometimento. Exemplo emblemático: o Concorde (avião supersônico anglo-francês) - foi mantido por décadas mesmo sendo claramente inviável economicamente, justamente pelo sunk cost. Por isso o viés é também chamado de 'falácia do Concorde'.

Tese central: Viés do custo afundado (sunk cost): persistir em curso de ação fracassado por já ter investido. Em decisão racional, sunk costs são irrelevantes - só importa o futuro. Também chamado de falácia do Concorde.

Q7

Questão 07 · Comentada

Enunciado. Sobre as técnicas de decisão em grupo, é correto afirmar:

  1. A) O brainstorming caracteriza-se por iniciar com geração silenciosa e individual de ideias, seguida de votação secreta.
  2. B) A técnica do grupo nominal envolve discussão livre e aberta sem nenhuma estrutura formal.
  3. C) O método Delphi é caracterizado pelo diálogo presencial entre especialistas, com identificação de cada participante.
  4. D) A técnica do grupo nominal combina geração silenciosa e individual de ideias com discussão clarificadora e votação secreta, reduzindo dominância e pressão para conformidade.
  5. E) O brainstorming impede totalmente a ocorrência de pensamento de grupo (groupthink).

Gabarito: D

Prof. Affonsinho comenta

Distinções entre técnicas. Brainstorming = livre. Grupo nominal = silêncio + round-robin + voto. Delphi = especialistas remotos anônimos.

  • A errada: Inversão. Brainstorming é LIVRE e oral em grupo, sem geração silenciosa. A descrição é da TÉCNICA DO GRUPO NOMINAL.
  • B errada: Inversão. Grupo nominal é ESTRUTURADO (silêncio → round-robin → discussão → votação). Discussão livre é do brainstorming.
  • C errada: Inversão. Delphi é ANÔNIMO e REMOTO (especialistas dispersos), justamente para reduzir pressão social. Diálogo presencial e identificação não fazem parte do método.
  • D CORRETA: Definição precisa do grupo nominal. Geração SILENCIOSA + round-robin + clarificação + VOTAÇÃO SECRETA. Reduz dominância e conformismo.
  • E errada: Brainstorming não impede groupthink - pode até facilitar, se grupo é homogêneo. Para combater groupthink: devil's advocate, investigação dialética, pré-mortem.

Tese central: BRAINSTORMING = livre, oral. GRUPO NOMINAL = silêncio + round-robin + voto. DELPHI = especialistas remotos anônimos. Devil's advocate = combate groupthink.

Q8

Questão 08 · Comentada

Enunciado. A matriz GUT é uma ferramenta de priorização que avalia problemas em três critérios. Sobre essa matriz, é correto afirmar:

  1. A) GUT significa Generalidade, Utilidade e Tempo, e a pontuação final é a soma das três variáveis.
  2. B) GUT significa Gravidade, Urgência e Tendência. A pontuação final é a MULTIPLICAÇÃO dos três critérios (G × U × T), priorizando-se os de maior pontuação.
  3. C) GUT é técnica de geração de ideias semelhante ao brainstorming.
  4. D) GUT é método de análise de cenários macroeconômicos.
  5. E) Na matriz GUT, valores mais baixos indicam problemas mais críticos.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Matriz GUT = priorização. G × U × T (multiplicação). Vai de 1 a 125. Maior pontuação = maior prioridade.

  • A errada: GUT = Gravidade, Urgência, Tendência - não Generalidade, Utilidade, Tempo. E é multiplicação, não soma.
  • B CORRETA: Matriz GUT precisa. Cada critério em escala de 1 a 5. Pontuação final = G × U × T (de 1 a 125). Prioriza-se o de maior pontuação.
  • C errada: GUT é PRIORIZAÇÃO de problemas, não geração de ideias.
  • D errada: GUT não é cenário macroeconômico - é ferramenta de gestão.
  • E errada: Inversão. Maior pontuação = MAIS prioritário (não menos). G alto + U alto + T alto = problema crítico.

Tese central: Matriz GUT: Gravidade × Urgência × Tendência. Cada critério em escala 1-5. Pontuação total = G×U×T (multiplicação). Prioriza-se maior pontuação.

Q9

Questão 09 · Comentada

Enunciado. A Lei 13.655/2018 acrescentou os Arts. 20 a 30 à LINDB, alterando significativamente o regime de decisões administrativas, controladoras e judiciais sobre gestão pública. Sobre essas alterações, é correto afirmar:

  1. A) O Art. 20 da LINDB estabelece que decisões devem ser tomadas exclusivamente com base em valores jurídicos abstratos, sem considerar consequências práticas.
  2. B) O Art. 28 da LINDB estabelece que o agente público responderá objetivamente por toda e qualquer decisão administrativa, independentemente de dolo ou culpa.
  3. C) O Art. 20 da LINDB estabelece que, nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão; o Art. 28 limita a responsabilização pessoal do agente público a casos de dolo ou erro grosseiro.
  4. D) A Lei 13.655/2018 revogou a LINDB integralmente.
  5. E) A Lei 13.655/2018 não tem aplicação ao setor público, restringindo-se a relações privadas.

Gabarito: C

Prof. Affonsinho comenta

LINDB pós-2018. Art. 20 = decisão por consequências. Art. 28 = limita responsabilização a dolo ou erro grosseiro.

  • A errada: Inversão. O Art. 20 diz exatamente o OPOSTO: NÃO se decidirá APENAS com valores abstratos sem considerar consequências práticas.
  • B errada: Inversão. O Art. 28 LIMITA a responsabilização pessoal do agente público a DOLO ou ERRO GROSSEIRO. Antes, havia mais responsabilização objetiva.
  • C CORRETA: Síntese precisa dos arts. 20 e 28. Decisão pública passou a exigir consideração de consequências (Art. 20). Agente público só responde pessoalmente em dolo ou erro grosseiro (Art. 28). Mudança radical no regime decisório.
  • D errada: Não revogou. Acrescentou os arts. 20 a 30. A LINDB continua em vigor.
  • E errada: Aplicação principal é justamente a decisões administrativas e controladoras (incluindo TCU, CGU). Lei pública por excelência.

Tese central: LINDB pós-2018 (Lei 13.655): Art. 20 - decisão considera consequências práticas. Art. 28 - agente público responde pessoalmente apenas em dolo ou erro grosseiro. Reduziu medo de decidir.

Q10

Questão 10 · Comentada

Enunciado. Richard Thaler e Cass Sunstein, em 'Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness' (2008), propuseram o conceito de 'nudge' (empurrãozinho). Sobre essa abordagem, é correto afirmar:

  1. A) Nudge é a aplicação de proibições legais e sanções pecuniárias para alterar o comportamento dos cidadãos.
  2. B) Nudge consiste em alterações na arquitetura da escolha que orientam o comportamento sem proibir nenhuma alternativa nem mudar significativamente os incentivos econômicos, configurando o que os autores chamam de 'paternalismo libertário'.
  3. C) Nudge é metodologia de gestão de projetos derivada do PMBOK.
  4. D) Nudge é incompatível com aplicação no setor público.
  5. E) Nudge equivale a coerção comportamental sem opção de saída.

Gabarito: B

Prof. Affonsinho comenta

Conceito de Thaler-Sunstein (Nudge 2008). Paternalismo libertário. Não proíbe, não muda incentivo - altera arquitetura da escolha.

  • A errada: Inversão. Nudge JUSTAMENTE NÃO usa proibições nem sanções. Mantém liberdade de escolha.
  • B CORRETA: Definição precisa. Nudge altera o CONTEXTO da escolha (arquitetura) sem proibir nem mudar incentivo econômico significativo. Mantém todas as opções abertas. Paternalismo libertário: orienta mas preserva liberdade.
  • C errada: Nudge não tem relação com PMBOK ou gestão de projetos. É economia comportamental aplicada à decisão.
  • D errada: Nudge é amplamente aplicado em setor público no mundo. No Brasil: GNova/ENAP, Receita Federal, INSS, Funpresp (adesão automática).
  • E errada: Nudge MANTÉM opção de saída. Coerção sem saída é o oposto do nudge - é proibição.

Tese central: Nudge (Thaler-Sunstein 2008): alteração na arquitetura da escolha que orienta comportamento sem proibir nem mudar incentivo significativo. 'Paternalismo libertário'. Aplicado em setor público brasileiro (GNova, Receita, Funpresp).

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