Em uma indústria metalúrgica de remanufatura de motores, onde trabalhadores usam uma marreta de 5kg para o desmonte de peças, começaram a apresentar tendinopatia de músculo supraespinhal, incluindo roturas do tendão. O médico do trabalho responsável pela empresa, ao diagnosticar a situação, entrou em contato com a direção, sugerindo rotatividade de trabalhadores naquele setor, retirando os que estavam lá há mais tempo, substituindo-os por outros que ainda não haviam trabalhado com a utilização da marreta. Também foi sugerida a implantação de pausas para alongamento muscular durante a jornada, medidas estas que foram acatadas pela direção da empresa. A atitude do médico foi:
- A)correta, pois com as medidas propostas haveria uma diluição do risco de adoecimento dos trabalhadores no setor, com menor probabilidade de adoecimento;
Errada, porque diluir o risco entre mais trabalhadores não elimina a causa do adoecimento e apenas espalha a exposição.
- B)incorreta, pois os trabalhadores do setor deveriam ser imediatamente afastados para tratamento, assim como deveriam ser feitas novas contratações para o setor, substituindo os trabalhadores adoecidos;
Errada, porque o foco não é simplesmente afastar e substituir pessoas, mas corrigir o posto e controlar o risco que está produzindo a lesão.
- C)correta, pois haveria uma diminuição do tempo da sobrecarga mecânica das atividades, associada à prevenção de lesões por meio do alongamento muscular;
Errada, porque alongamento e redução de sobrecarga até podem ajudar, mas não bastam quando a atividade e a ferramenta continuam gerando lesão.
- D)incorreta, pois o médico deveria empenhar-se pela melhor adequação do trabalho aos trabalhadores, pela eliminação e pelo controle dos riscos, tais como utilização de ferramentas não lesivas;
Certa, porque a atuação correta do médico do trabalho é promover a adaptação do trabalho ao trabalhador, com eliminação e controle dos riscos.
- E)incorreta, pois deveria ser adotado revezamento contínuo apenas dos trabalhadores que adoeceram nessa atividade, de forma a diminuir a exposição dos não adoecidos.
Errada, porque o revezamento não deve ser usado apenas para proteger quem já adoeceu, e sim como parte de um conjunto de medidas voltadas ao controle do risco na origem.
Gabarito: D
A lógica da saúde ocupacional não é “trocar quem adoece por quem ainda não adoeceu”, mas sim atacar a causa do problema. Se uma atividade com marreta de 5 kg está gerando tendinopatia e roturas do supraespinhal, o alerta está no posto de trabalho, não no currículo do trabalhador. O foco deve ser a prevenção primária: eliminar ou reduzir a exposição, adaptar a tarefa e escolher ferramentas menos lesivas, em vez de empurrar o risco de um ombro para outro. É por isso que a atuação do médico do trabalho precisa ir além de medidas paliativas. A medicina do trabalho, na linha da prevenção, busca a melhor adequação do trabalho ao ser humano, com controle dos riscos ambientais e organizacionais. Isso conversa com os princípios da saúde e segurança do trabalho e com o dever do empregador de reduzir os riscos inerentes ao trabalho, conforme a CF/88, art. 7º, XXII, e com a lógica das NRs, especialmente a prevenção e o gerenciamento dos riscos ocupacionais. No caso, a sugestão de revezamento de trabalhadores e pausas para alongamento pode até parecer “bonita no papel”, mas não resolve a raiz do problema se a tarefa continua sendo feita da mesma forma, com a mesma ferramenta e a mesma sobrecarga biomecânica. Alongamento ajuda como medida complementar, não como solução principal quando o agente causal está bem identificado. Por isso o gabarito é a letra D: o médico deveria empenhar-se pela melhor adequação do trabalho aos trabalhadores, pela eliminação e pelo controle dos riscos, inclusive com substituição de ferramentas e mudanças no processo. Em prova da FGV, desconfie sempre de respostas que vendem remendo como se fosse cura.