Enfermeira, 38 anos, que atua em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) há dez anos, relata ao médico do trabalho sintomas de exaustão emocional, distanciamento de colegas e pacientes, e um sentimento de ineficácia no trabalho. Ela menciona que, nos últimos meses, teve episódios de insônia, crises de choro, irritabilidade e dificuldade em se concentrar. Durante a consulta, ela admite que as condições intensas de trabalho, incluindo plantões prolongados e alta demanda emocional, têm afetado sua vida pessoal e profissional. Com base no caso hipotético apresentado, assinale, a seguir, a melhor abordagem diagnóstica e preventiva no contexto ocupacional.
- A)Solicitar afastamento da trabalhadora por tempo indeterminado e prescrever ansiolíticos para reduzir os sintomas de exaustão emocional.
Errada, porque afastamento e ansiolítico podem até fazer parte da condução clínica em alguns casos, mas não resolvem a raiz ocupacional do problema e ainda exageram ao propor afastamento por tempo indeterminado.
- B)Avaliar o ambiente de trabalho, após a confirmação de outros casos na equipe, para evitar ações preventivas baseadas em um único relato.
Errada, porque a suspeita de adoecimento relacionado ao trabalho não depende de confirmação prévia de outros casos na equipe para que haja avaliação do ambiente e adoção de medidas preventivas.
- C)Incentivar a autoavaliação contínua pela trabalhadora e recomendar intervenções individuais, como, por exemplo, a prática de mindfulness, sem necessidade de mudanças organizacionais.
Errada, porque mindfulness e autoavaliação podem ser medidas complementares, mas não substituem mudanças organizacionais quando o problema decorre de fatores de trabalho bem claros.
- D)Identificar os fatores de risco ocupacionais, como, por exemplo, a carga horária excessiva; e implementar mudanças organizacionais, como a redução de plantões e a criação de grupos de suporte psicossocial.
Certa, porque o caso aponta risco psicossocial ocupacional e exige identificação dos fatores de risco e intervenções na organização do trabalho, como redução de plantões e suporte psicossocial.
- E)Realizar exames psiquiátricos para diagnosticar transtornos de humor, visto que a síndrome de Burnout é considerada uma condição médica formal e requer intervenção do psiquiatra e não do médico do trabalho.
Errada, porque Burnout não é sinônimo de transtorno de humor nem exige psiquiatra como única via; além disso, o médico do trabalho tem papel central na avaliação e na prevenção ocupacional.
Gabarito: D
O caso descreve um quadro bem típico de esgotamento ocupacional, com exaustao emocional, distanciamento, queda de desempenho e sintomas como insônia e irritabilidade. Em medicina do trabalho, a leitura correta não é olhar só para a pessoa como se o problema fosse “fraqueza individual”, mas sim para o conjunto de fatores do trabalho que estão adoecendo o trabalhador. A síndrome de Burnout é tratada pela OMS na CID-11 como um fenomeno ocupacional, ligado a estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso. Na prática, isso leva o medico do trabalho a investigar a organização do trabalho, a carga horária, a intensidade emocional, os plantões, o suporte da equipe e outros riscos psicossociais. Por isso, a melhor conduta é identificar os fatores de risco ocupacionais e propor medidas organizacionais, como reduzir plantões excessivos, ajustar a escala, melhorar pausas, fortalecer suporte da chefia e criar grupos de apoio psicossocial. Isso é muito mais efetivo do que tratar apenas o sintoma com remédio ou jogar toda a responsabilidade nas costas da trabalhadora. Em resumo: aqui o foco é prevenção primaria e secundaria no ambiente laboral, com intervenção na causa do adoecimento. O médico do trabalho deve enxergar o problema de forma sistêmica, e não como um caso isolado de “nervosismo”.