Determinado médico do trabalho está avaliando um trabalhador, de 45 anos, que durante vinte anos foi exposto a solventes químicos em uma indústria. O paciente apresenta queixas de dores de cabeça frequentes e dificuldades cognitivas recentes, as quais alega estarem associadas à exposição química sofrida no trabalho. Exames laboratoriais prévios não indicaram alterações significativas, mas o paciente está preocupado com o impacto da exposição a longo prazo. O médico, então, decide investigar a associação entre a exposição crônica a solventes e efeitos neurocognitivos para basear a decisão clínica em evidências científicas robustas. Ele precisa formular uma pergunta clínica estruturada no formato PICO – Paciente/Problema; Intervenção; Comparação; e, Overcome (Resultado). Diante do exposto, assinale, a seguir, a formulação mais adequada no formato PICO para orientar a busca de evidências nesse caso
- A)P: Trabalhadores com cefaleia crônica; I: Uso de medicamentos analgésicos; C: Terapias não farmacológicas; O: Melhora na qualidade de vida.
Errada, porque troca o problema real da questão por cefaleia crônica e ainda transforma a pergunta em tratamento, não em exposição ocupacional.
- B)P: Indivíduos com suspeita de intoxicação por solventes; I: Exames laboratoriais adicionais; C: Avaliação clínica isolada; O: Diagnóstico mais preciso da intoxicação.
Errada, porque foca em diagnóstico de intoxicação e exames laboratoriais, desviando do objetivo central, que é avaliar associação entre solventes e efeitos neurocognitivos.
- C)P: Trabalhadores expostos cronicamente a solventes químicos; I: Exposição crônica a solventes; C: Trabalhadores não expostos a solventes. O: Efeitos neurocognitivos a longo prazo.
Certa, porque identifica o grupo exposto, compara com não expostos e aponta o desfecho neurocognitivo a longo prazo, que é exatamente a lógica do PICO pedido.
- D)P: Trabalhadores expostos a solventes químicos; I: Retirada do trabalhador do ambiente de exposição; C: Manutenção no ambiente de exposição; O: Redução das queixas de cefaleia e dificuldades cognitivas.
Errada, porque descreve uma intervenção de afastamento do ambiente, quando o caso pede uma pergunta sobre associação entre exposição e dano, não sobre terapia.
- E)P: Trabalhadores com histórico de exposição a solventes; I: Adoção de protocolos de proteção ambiental; C: Ausência de protocolos de proteção; O: Redução da incidência de sintomas neurocognitivos e melhora na qualidade de vida.
Errada, porque muda o foco para medidas de prevenção ambiental e redução de sintomas, o que não corresponde à pergunta clínica estruturada proposta no enunciado.
Gabarito: C
A lógica do PICO é organizar a pergunta clínica para você não buscar evidência de forma solta, no improviso. Em geral, ele separa Paciente/Problema, Intervenção, Comparação e Outcome (resultado), ajudando a transformar uma dúvida clínica em uma pergunta pesquisável. Isso é muito usado em medicina baseada em evidências e cai bastante em prova porque parece simples, mas a banca adora trocar os elementos de lugar. No caso, o foco do médico é entender se a exposição crônica a solventes químicos pode gerar efeitos neurocognitivos ao longo do tempo. Então o problema/paciente deve ser justamente o grupo de trabalhadores expostos a solventes, a comparação deve ser com trabalhadores não expostos, e o desfecho precisa ser o efeito neurocognitivo de longo prazo. Repare que a pergunta não é sobre tratamento, nem sobre exame, nem sobre retirada do trabalhador do ambiente. É uma pergunta de associação/exposição e desfecho. Por isso, a alternativa C é a mais adequada: ela organiza corretamente o PICO dentro da lógica da exposição ocupacional e do resultado clínico investigado. Em questões assim, pense assim: quem é o grupo? o que está sendo estudado? com quem vai comparar? e qual efeito quer medir? Se esses quatro pontos fecham a conta, você acertou o espírito da questão. Na prática da medicina do trabalho, essa estrutura ajuda a decidir com base em evidências se há nexo ou associação plausível entre exposição e adoecimento, o que conversa com a atuação técnica do médico do trabalho e com a lógica da avaliação clínica fundamentada em evidências.