Determinado trabalhador, 52 anos, operador de uma linha de montagem há vinte e cinco anos, apresenta dor crônica no ombro direito, com piora nas últimas semanas. Ele relata dificuldade para elevar o braço acima da cabeça e dormência intermitente no braço. Durante o exame físico, observa-se limitação na mobilidade articular e dor à palpação na região do manguito rotador. O trabalhador menciona que realiza movimentos repetitivos com elevação do braço. O médico do trabalho avalia o caso considerando possíveis diagnósticos diferenciais e estratégias preventivas e terapêuticas para evitar a progressão da condição e o impacto na capacidade laboral. Considerando o caso hipotético apresentado, bem como os conhecimentos sobre agravos musculoesqueléticos relacionados ao trabalho, qual das alternativas a seguir representa a melhor abordagem diagnóstica e preventiva?
- A)Reavaliar o trabalhador periodicamente sem outras medidas adicionais iniciais, pois os sintomas tendem a remitir espontaneamente em casos de sobrecarga muscular aguda.
Errada, porque apenas observar sem intervenção não trata a causa ocupacional nem previne a progressão do agravo.
- B)Solicitar exames de imagem, como ultrassonografia, para confirmar o diagnóstico de tendinopatia do manguito rotador, além de recomendar o retorno ao trabalho sem restrições.
Errada, porque exame de imagem pode ajudar, mas liberar retorno sem restrições ignora o nexo funcional e o risco ergonômico persistente.
- C)Realizar eletroneuromiografia para confirmar, ou não, o comprometimento neurológico, considerando a compressão nervosa como causa primária dos sintomas, e prescrever analgésicos.
Errada, porque o quadro sugere mais lesão musculotendínea do ombro do que compressão nervosa primária, e eletroneuromiografia não é o exame inicial mais adequado.
- D)Afastar o trabalhador de atividades que exijam o uso do membro superior dominante e indicar avaliação especializada para a consideração de tratamento cirúrgico, a fim de evitar a evolução do quadro clínico.
Errada, porque afastamento e cirurgia não são a melhor resposta automática; o caso pede קודם avaliação ergonômica e tratamento conservador antes de medidas invasivas.
- E)Avaliar o ambiente de trabalho e propor ajustes ergonômicos, como, por exemplo, a redução de movimentos repetitivos e pausas programadas, além de encaminhar o trabalhador para reabilitação com fisioterapia.
Certa, porque reduz os fatores de risco no trabalho e associa reabilitação, que é a conduta mais adequada para agravos por esforço repetitivo e sobrecarga do ombro.
Gabarito: E
O caso descreve um quadro típico de agravo musculoesquelético relacionado ao trabalho, especialmente de ombro, com dor crônica, limitação de movimento e relação com atividade repetitiva com elevação do membro superior. Isso faz pensar em tendinopatia do manguito rotador, síndrome do impacto e outras LER/DORT, que muitas vezes não se resolvem apenas com remédio e torcida pelo melhor. O ponto central é ligar o diagnóstico ao contexto ocupacional e, ao mesmo tempo, atacar a causa no ambiente de trabalho. Na medicina do trabalho, a abordagem correta costuma ser dupla: cuidar do trabalhador e cuidar do posto. Por isso, a melhor conduta envolve avaliar o ambiente, identificar movimentos repetitivos, posturas forçadas e sobrecarga biomecânica, e propor ajustes ergonômicos, pausas programadas e redução da exigência funcional do membro afetado. Isso ajuda a evitar progressão da lesão e a perda de capacidade laboral. Além disso, encaminhar para reabilitação com fisioterapia é muito adequado, porque o tratamento conservador costuma ser a primeira linha em muitos casos de lesão por sobrecarga, desde que não haja indicação imediata de cirurgia ou outra urgência. A lógica é simples: se o ombro reclama toda hora ao levantar o braço, não adianta mandar o trabalhador continuar no mesmo ritmo e esperar milagre. A alternativa E é a melhor porque une prevenção primária e secundária: corrige os riscos ergonômicos e oferece reabilitação. Isso está em sintonia com os princípios da prevenção em saúde ocupacional e com as normas de ergonomia, especialmente a NR-17, que exige adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas do trabalhador.