Em Racismo e antirracismo na educação: repensando nossa escola, Cavalleiro (2001) relata que realizou observação em uma escola de educação infantil por oito meses, e narra que durante a pesquisa uma menina de seis anos disse: “as crianças me xingam de preta que não toma banho. Só porque eu sou preta elas falam que eu não tomo banho. Ficam me xingando de preta carvão. Elas me xingam de preta fedida. Eu contei para a professora e ela não fez nada”. No texto, considerando os estudos realizados, Cavalleiro declara e defende que
- A)crianças que reproduzem falas e ações racistas certamente têm pais com esse tipo de comportamento, e por isso não cabe à professora intervir junto às crianças naquele contexto; e caso as ofensas ocorram novamente, a docente deve limitar-se a conversar com a gestão da escola a quem cabe encaminhar o caso ao Conselho Tutelar.
Errada, porque transfere a responsabilidade para os pais e isenta a professora de intervir, o que contraria a ideia de combate institucional ao racismo na escola.
- B)a professora silenciou diante da reclamação da menina pois, a forma correta de lidar com esse tipo de conflito é mudar o foco de atenção da criança ofendida, para que a aluna esqueça o pequeno conflito e entenda que esse tipo de questão é irrelevante, no entanto, o ideal seria que a professora respondesse: “não dê importância para isso, somos todos iguais!”.
Errada, porque minimizar a ofensa e mudar o foco da criança não enfrenta a discriminação e ainda reforça a invisibilização do problema.
- C)a ausência de atitude por parte de professores sinaliza à criança discriminada que ela não pode contar com a cooperação de seus educadores e, ao mesmo tempo, sinaliza para a criança que discrimina que ela pode repetir a sua ação, visto que nada acontece; a conivência por parte dos profissionais da educação banaliza a discriminação racial.
Certa, porque mostra que a omissão do professor legitima a discriminação e comunica tolerância ao racismo dentro da escola.
- D)a educação anti-racista (educação para relações étnico-raciais) deve ser adotada exclusivamente nas turmas nas quais ocorre discriminação racial na escola; em contrapartida, em contextos escolares nos quais esses conflitos não são evidentes, deve-se evitar promover a educação anti-racista, para que os estudantes negros não se sintam constrangidos com o tema.
Errada, porque a educação antirracista deve ser contínua e transversal, e não usada só quando há conflito explícito.
- E)as imagens e decorações nas paredes da escola; as expressões usadas pelas professoras; os comportamentos não verbais direcionados às crianças negras e brancas; os elogios, os comentários positivos ou depreciativos; o currículo, todos esses aspectos demonstraram que expressões de racismo e preconceito raramente ocorrem nas escolas, e que esse é um problema individual e não institucional, por isso, o ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira é facultativo.
Errada, porque trata o racismo como problema individual e ainda nega o caráter obrigatório do ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira.
Gabarito: C
A questão trata de racismo na escola e da obrigação institucional de enfrentá-lo de forma ativa, e não com silêncio ou minimização. Nos estudos de Cavalleiro, a escola não aparece como um lugar neutro: quando o adulto se omite diante da ofensa racista, a mensagem que fica para a criança negra é de desamparo, e para a criança que agride é de permissão. Ou seja, a omissão também educa, só que educa para a repetição da violência. É por isso que o gabarito está na alternativa C. Cavalleiro defende que a falta de intervenção do professor banaliza a discriminação racial, reforçando a ideia de que o racismo é tolerado no cotidiano escolar. A criança discriminada percebe que não pode contar com o educador; a criança que discrimina entende que pode continuar, porque nada acontece. É uma leitura muito coerente com a educação antirracista: não basta "não ser racista", é preciso agir para interromper o racismo quando ele aparece. Esse entendimento conversa diretamente com a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura আফro-Brasileira, depois ampliada pela Lei 11.645/2008, além das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. A escola deve formar para o respeito à diversidade e combater preconceitos de modo permanente, em todo o ambiente escolar, não apenas quando o problema explode na frente de alguém. Em resumo: racismo na escola não se resolve com silêncio, frase pronta ou "deixa pra lá". Quando o adulto não intervém, ele não fica neutro; ele toma partido da continuidade da discriminação. E é exatamente essa crítica que Cavalleiro faz.