Vinha (2009), em O educador e a moralidade infantil numa perspectiva construtivista, aborda o tema da construção da moralidade apoiando-se em estudos de Piaget e outros autores. De acordo com a autora, é correto afirmar que
- A)a construção da autonomia se dá em um processo de aplicação de sanções expiatórias, de recompensas e de repetições de ordens sobre como a criança deve agir em relação aos outros.
Errada, porque autonomia não se constrói por sanções expiatórias, recompensas e ordens repetidas, mas por cooperação, reflexão e respeito mútuo.
- B)a construção da inteligência se dá a partir da interação com o meio, o que difere da moralidade, que se constitui com a obediência estrita e a relação unilateral com a figura de autoridade.
Errada, porque a moralidade também se desenvolve na interação com o meio e não se reduz à obediência estrita à autoridade.
- C)o ensino de aspectos referentes à constituição da moralidade deve ser encarado com suas especificidades e, por isso, não pode ser tratado como tema transversal.
Errada, porque a moralidade pode ser tratada de forma transversal na escola, articulada às relações, convivência e formação ética.
- D)a moralidade não é ensinada por sermões, mas vai se dando a partir das pequenas experiências diárias que a criança tem ao se relacionar com o outro.
Certa, porque a moralidade se constrói nas experiências diárias de convivência e relação com o outro, e não por sermões.
- E)a aprendizagem da moralidade é um processo que prescinde a constituição da autonomia, e, sobretudo da heteronomia porque nessa, a criança está livre de regras.
Errada, porque a aprendizagem moral depende da passagem pela heteronomia e pela construção da autonomia, e não de liberdade total de regras.
Gabarito: D
A ideia central de Vinha, ao dialogar com Piaget, é que a moralidade não nasce de discurso bonito, sermão ou ordem repetida, como se a criança virasse ética por osmose. Ela se constrói nas relações concretas do dia a dia, quando a criança convive, negocia regras, sente as consequências dos próprios atos e percebe o outro como alguém real, não só como alguém que manda ou pune. Em Piaget, isso aparece bem na diferença entre heteronomia e autonomia. Na heteronomia, a criança tende a obedecer porque a autoridade impõe regras e porque teme punição. Já a autonomia vai surgindo quando ela passa a compreender o sentido das regras, a cooperar e a considerar pontos de vista diferentes. Ou seja: moralidade não é decorada, é vivida. Por isso, a alternativa correta é a D. Ela acerta ao dizer que a moralidade não é ensinada por sermões, mas se forma nas pequenas experiências cotidianas de relação com o outro. É justamente nessas situações simples, de convivência, conflito, acordo e reparação, que a criança vai construindo juízos morais mais elaborados. Essa leitura também combina com a perspectiva construtivista: a criança não é um recipiente vazio esperando instrução moral pronta. Ela participa ativamente da construção do próprio pensamento moral, em interação com colegas, adultos e regras compartilhadas. É o tipo de assunto que a banca adora ver se você caiu na armadilha do moralismo de fachada.