Leia os fragmentos a seguir: “De tanto ouvirem de si mesmos que são incapazes, que não sabem nada, que não podem saber, que são enfermos, indolentes, que não produzem em virtude de tudo isto, terminam por se convencer de sua ‘incapacidade’.”. (FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011, p. 69). “O educador, que aliena a ignorância, se mantém em posições fixas, invariáveis. Será sempre o que sabe, enquanto os educandos serão sempre os que não sabem. A rigidez destas posições nega a educação e o conhecimento como processos de busca.” (FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 50. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011, p. 81). A partir dos excertos acima, conclui-se que a perspectiva freireana
- A)considera que o professor, na condição de ser aquele que possui o conhecimento, deve organizar a sala de aula de modo a manter a hierarquia necessária para a transmissão dos saberes.
Errada, porque Freire rejeita a hierarquia rígida em que o professor é o dono do saber e apenas transmite conteúdos.
- B)considera que existe uma sabedoria popular, ou seja, os alunos trazem consigo vivências, conhecimentos e hábitos que devem ser levados em conta no sentido de uma conscientização, visando, como fim, a uma transformação social.
Certa, porque valoriza os saberes e vivências dos alunos como ponto de partida para a conscientização e a transformação social.
- C)não concorda com a forma tradicional de ensino, preferindo um modelo horizontal em que o professor, pela sua práxis, crie situações que atuem de modo global, a fim de que todos possam aprender ao mesmo tempo e de forma eficiente.
Errada, porque embora critique o ensino tradicional, Freire não defende um modelo apenas eficiente e simultâneo, mas sim dialógico, crítico e contextualizado.
- D)trata a educação como um ato político e revolucionário. Dessa forma, a conscientização da situação econômica e social do aprendiz deve ocorrer de forma individualizada, e o conhecimento alcançado deve ser usado para a transformação pessoal. Isso facilitaria a formação de líderes que atuarão na transformação revolucionária da sociedade.
Errada, porque reduz a conscientização a uma dimensão individual, quando em Freire ela é social, coletiva e voltada à transformação da realidade.
Gabarito: B
Paulo Freire critica a chamada educação bancária, aquela em que o professor “deposita” conteúdos e o aluno fica passivo, como se não trouxesse nada de válido para a sala de aula. Nos trechos da Pedagogia do Oprimido, ele mostra justamente o contrário: quando a pessoa ouve repetidamente que é incapaz, acaba internalizando essa visão, e isso impede a autonomia e a consciência crítica. Ou seja, educar, para Freire, não é só transmitir conteúdo; é ajudar o educando a ler o mundo e a perceber sua própria realidade. A grande sacada freireana é que o aluno não chega vazio. Ele traz experiências, saberes populares, linguagem, cultura e vivências que precisam ser valorizados no processo pedagógico. Isso não significa abandonar o conteúdo escolar, mas relacioná-lo com a vida concreta do educando, para que a aprendizagem tenha sentido e gere conscientização. Por isso, o gabarito é a letra B. Ela traduz bem a ideia de que existe uma sabedoria popular e que os conhecimentos prévios dos alunos devem ser considerados para favorecer a conscientização e, no limite, a transformação social. Em Freire, a educação é um ato político, dialógico e libertador, não uma simples repetição de informações. Em resumo: menos “cadeira do professor, silêncio da turma” e mais diálogo com a realidade.