“O problema da leitura e da literatura na escola não se resume, a meu ver, a uma questão de adequação à faixa etária ou ao gosto do aluno, nem ao condicionamento neurotizante do hábito de ler através de técnicas milagrosas”. Maria do Rosário Mortatti Magnani. Leitura, literatura e escola: sobre a formação do gosto. Buscando elencar causas para o problema apontado, a autora conclui, entre outros motivos, que:
- A)os estímulos padronizados da indústria cultural acabam moldando e imobilizando o gosto do leitor, tendendo a torná-lo consumidor de literatura trivial.
Correta, porque expressa a crítica da autora à indústria cultural, que padroniza o gosto e empurra o leitor para consumos literários superficiais.
- B)a formação do gosto pessoal é um fenômeno individual, sobre o qual não devem recair juízos de valor.
Errada, porque a autora não trata o gosto como algo puramente individual e imune a juízos; ela mostra que ele é socialmente moldado.
- C)o acesso precário da maioria dos cidadãos brasileiros às produções culturais de seu tempo dificulta a tarefa da escola de promover a apreciação da arte.
Errada, porque, embora o acesso à cultura seja um problema real, essa não é a conclusão destacada no trecho como causa principal.
- D)as práticas de leitura devem ser feitas em sala de aula, pois a falta de tempo dos alunos para se dedicar aos trabalhos externos à escola tem de ser considerada.
Errada, porque reduz a leitura à organização do tempo escolar, sem tocar no núcleo da crítica da autora sobre cultura e formação do gosto.
- E)a reflexão sobre o papel recreativo do texto literário ajuda a despertar nos alunos o gosto por esse tipo de linguagem.
Errada, porque a autora não defende o apelo ao aspecto recreativo como solução central, mas critica as soluções simplistas para formar leitores.
Gabarito: A
A questão trata de um problema clássico da escola: achar que basta escolher um livro “adequado à idade” ou usar uma técnica mágica para fazer todo mundo gostar de leitura. Maria do Rosário Mortatti Magnani critica essa visão simplista e aponta que o problema é mais profundo: envolve a forma como a cultura chega ao aluno, o papel da escola e a influência do mercado cultural sobre o gosto leitor. Em outras palavras, o gosto não nasce no vácuo; ele é formado em meio a estímulos, valores e repertórios que a sociedade oferece. A ideia central da autora é que a indústria cultural tende a padronizar preferências, repetindo fórmulas fáceis e produtos de consumo rápido. Isso acaba moldando o leitor para buscar apenas o que é trivial, imediato e já conhecido, o que enfraquece a relação com a literatura como experiência de ampliação de linguagem, visão de mundo e sensibilidade. A escola, então, não pode agir como se o aluno já chegasse pronto, com gosto “natural” pela leitura. Por isso, o gabarito é a alternativa A: ela traduz exatamente essa crítica ao gosto leitor domesticado pelos padrões da indústria cultural. Em vez de tratar a leitura como simples hábito mecânico ou mera adequação etária, a autora entende que formar leitores exige mediação cultural séria, contato com obras diversas e enfrentamento do consumo cultural padronizado. Não há aqui uma lei específica como base, porque a questão é doutrinária e interpretativa, ligada à reflexão pedagógica sobre leitura e literatura. O foco é perceber a crítica da autora à formação do gosto em um contexto social marcado por desigualdade cultural e pela força dos meios de massa.