Um dos desafios da educação nos anos iniciais é fazer as crianças perceberem as diferentes lógicas de funcionamento da enunciação oral e da enunciação escrita. As afirmativas a seguir descrevem corretamente essas lógicas de funcionamento, à exceção de uma. Assinale-a.
- A)Em situações coloquiais, a linguagem oral funciona em interação com sujeitos responsivos em diversas condições de produção.
Certa, porque a oralidade em situações coloquiais se constrói na interação imediata com interlocutores responsivos e com forte dependência do contexto.
- B)A escrita é dirigida a um leitor, o que exige um controle interior e global do enunciador, uma visão antecipada do texto.
Certa, porque o texto escrito exige planejamento, antecipação do leitor e maior controle do enunciador sobre a organização do enunciado.
- C)O texto escrito é uma atividade de linguagem em que o enunciador é o responsável pelo planejamento e pela elaboração dos conteúdos textuais.
Certa, porque na escrita o autor normalmente assume o planejamento e a elaboração dos conteúdos textuais de modo mais sistemático.
- D)A oralidade induz a um pensamento pré-lógico e fantasioso, marcado pela repetição e ciclicidade, ao passo que a escrita textual pressupõe o desenvolvimento da causalidade lógica.
Errada, porque associa oralidade a pensamento pré-lógico e fantasioso, o que é um estereótipo inadequado e pedagogicamente incorreto.
- E)A linguagem oral e a escrita se manifestam linearmente, já que falamos e escrevemos uma palavra depois da outra, uma frase de cada vez, mesmo que as ideias sejam concebidas de modo global.
Certa, porque fala e escrita se realizam linearmente na produção, embora as ideias possam ser pensadas de forma global antes da enunciação.
Gabarito: D
A questão explora uma ideia central na alfabetização: oralidade e escrita não são a mesma coisa, porque funcionam em condições diferentes de produção e de recepção. Na fala, você conta com a presença do outro, com gestos, entonação, retomadas e ajustes ao vivo. Já na escrita, o enunciador precisa planejar melhor, prever o leitor e organizar o texto com mais controle, porque o interlocutor não está ali para pedir explicação na hora. Na teoria da linguagem, especialmente em estudos de enunciação e de didática da língua, a escrita exige maior planejamento global do que a fala cotidiana. Isso não significa que a oralidade seja inferior, nem que a escrita seja automaticamente mais inteligente. Significa apenas que cada modalidade tem sua lógica própria, com recursos e limites diferentes. A alternativa D erra ao afirmar que a oralidade induz a um pensamento pré-lógico e fantasioso, como se falar fosse menos racional por natureza. Isso é uma visão antiga e simplificadora, que não se sustenta pedagogicamente. A oralidade pode ser altamente argumentativa, lógica e complexa, assim como a escrita pode ser informal, repetitiva e até pouco organizada. Portanto, a banca quer que você perceba esse estereótipo inadequado. Em termos didáticos, o ponto é: a escola deve ensinar a criança a transitar entre fala e escrita, entendendo que uma não é cópia da outra. A oralidade não é ausência de lógica, e a escrita não é, por si só, garantia de pensamento superior. O erro da questão está justamente nessa caricatura da fala.