A distância entre os conceitos e o concreto é o problema a que volto quando penso na questão da linguagem na sala de aula. Os conceitos deveriam estar associados a uma realidade concreta, mas não estão, o que cria um problema pedagógico. Quando os alunos chegam à universidade, sua experiência de linguagem é possivelmente muito mais a experiência de definir o concreto de sua existência e não uma experiência de dançar com os conceitos por si mesmos. FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013. No trecho acima, Paulo Freire destaca um desafio do papel de professor relacionado a diferenças no uso da linguagem. Assinale a opção que descreve corretamente a habilidade necessária ao professor para transpor o problema destacado.
- A)Articulação interlocutiva, estabelecendo pontes entre os conceitos acadêmicos e a realidade dos alunos.
Certa, porque o professor precisa ligar os conceitos acadêmicos à vivência concreta dos alunos por meio do diálogo e da mediação pedagógica.
- B)Neutralidade pedagógica, assegurando que o ensino se mantenha distante das experiências subjetivas dos alunos.
Errada, porque Freire rejeita a neutralidade como falsa e defende que o ensino se conecte com a realidade do educando.
- C)Não-intervencionismo, permitindo que os alunos construam seus próprios significados sem a mediação conceitual.
Errada, porque o professor não deve se omitir: ele precisa intervir pedagogicamente e mediar a construção de sentidos.
- D)Autoridade cognitiva, garantindo que o professor determine os significados corretos dos conceitos a serem aprendidos.
Errada, porque a ênfase não é impor significados prontos, mas construir compreensão em diálogo com os alunos.
- E)Abstração progressiva, incentivando os alunos a se distanciarem do concreto para acessarem os conceitos.
Errada, porque o problema apontado não se resolve afastando o aluno do concreto, e sim aproximando o conceito da experiência vivida.
Gabarito: A
Paulo Freire chama atenção para um problema muito comum em sala de aula: o conceito aparece como algo solto, distante da vida real do aluno. Quando isso acontece, a linguagem vira uma espécie de muro, em vez de ponte. O desafio do professor é justamente fazer a mediação entre o saber escolar e a experiência concreta do estudante, para que o conteúdo faça sentido. Na visão freiriana, ensinar não é despejar palavras prontas, mas dialogar com a realidade do educando. O professor precisa partir do vivido, do próximo, do que o aluno reconhece, e então ampliar esse olhar para os conceitos mais elaborados. Assim, o conhecimento não fica abstrato demais nem vira uma “definição decorada” sem vida. Por isso, a habilidade correta é a articulação interlocutiva: saber conversar pedagogicamente com os alunos, criando pontes entre linguagem acadêmica e mundo concreto. É a lógica do diálogo e da problematização, tão presente em Freire, em oposição ao ensino bancário, que trata o aluno como recipiente de conceitos prontos. A alternativa A está correta porque descreve exatamente essa mediação entre conceito e realidade. As demais falam em neutralidade, não intervenção, autoridade rígida ou afastamento do concreto, todas ideias que se chocam com a pedagogia freiriana.