Por sua vez, a educação sempre esteve também permeada pelos mecanismos de controle. E a disciplinarização possibilita esse controle sobre o aprendizado (o quê, quando, quanto e como o aluno aprende) e também um controle sobre o próprio aluno. A disciplina também está relacionada ao comportamento, não apenas à aprendizagem. ALVES, N. LEITE, R. (Org.) O sentido da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 24. Michael Foucault fez um contundente diagnóstico acerca do poder disciplinar e seus modos de atuação nos espaços e organizações educacionais. Assinale a opção que não corresponde a um desses modos.
- A)A prática avaliativa dos exames.
Está certa como modo disciplinar, porque os exames são instrumentos clássicos de classificação, vigilância e normalização.
- B)O fatiamento do tempo em atividades específicas.
Está certa como modo disciplinar, pois dividir o tempo em etapas e atividades controla ritmo, duração e rendimento do aluno.
- C)A disposição cartográfica da sala de aula.
Está certa como modo disciplinar, já que a organização espacial da sala ajuda a vigiar e ordenar os corpos no ambiente escolar.
- D)A utilização dos uniformes no espaço escolar.
Está certa como modo disciplinar, porque o uniforme padroniza os estudantes e facilita o controle e a identificação.
- E)A abordagem transdisciplinar dos conteúdos.
Está errada, porque a transdisciplinaridade é uma proposta de articulação entre conteúdos, não um mecanismo de controle disciplinar.
Gabarito: E
Michel Foucault ajuda a enxergar a escola como um espaço que não ensina apenas conteúdos, mas também organiza corpos, tempos e comportamentos. Na lógica disciplinar, a instituição observa, classifica, compara e corrige. Ou seja: não basta aprender matemática, o aluno também aprende a sentar direito, falar na hora certa e obedecer a rotinas bem marcadas. É por isso que aparecem mecanismos como exames, horários rígidos, divisão do espaço da sala e regras de vestuário. Tudo isso produz controle fino sobre o aprendizado e sobre a conduta. A disciplina, nesse sentido, não age só pela força, mas pela organização cotidiana da vida escolar, quase como um relógio com olho de fiscal. A alternativa que foge desse raciocínio é a abordagem transdisciplinar dos conteúdos. Ela não é um mecanismo de controle disciplinar descrito por Foucault, mas uma proposta pedagógica de integração entre saberes, voltada a ampliar conexões entre áreas do conhecimento. Em vez de controlar, ela busca articular. Então, o gabarito é a letra E porque ela apresenta uma prática de organização curricular, e não um instrumento de vigilância e disciplina escolar. Foucault criticaria justamente os dispositivos que tornam a escola mais reguladora do que formadora, e a transdisciplinaridade não entra nesse pacote.