Disciplinar o aluno é fazer com que ele também perceba o seu lugar social. A disposição cartográfica de uma sala de aula, seja ela qual for, é sempre uma disposição estratégica para que o professor possa dominar os alunos, pois nesta concepção de escola o aprendizado só pode acontecer sob domínio. Para dizer de outra forma, uma sala de aula nunca é caótica, há sempre uma ordem implícita que, se visa possibilitar a ação pedagógica, traz também a marca do exercício do poder, que deve ser sofrido e introjetado pelo aluno. ALVES, N. LEITE, R. (Org.) O sentido da escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2002, p. 24. Uma das práticas educacionais que viabilizam a introjeção do poder disciplinar consiste
- A)na aplicação de atividades em grupos.
Errada, porque atividades em grupo tendem a favorecer cooperação e participação, e não a introjeção disciplinar descrita no enunciado.
- B)nas propostas didáticas de debates.
Errada, porque debates estimulam argumentação e autonomia de pensamento, indo contra a ideia de controle rígido dos alunos.
- C)na promulgação da gestão democrática.
Errada, porque a gestão democrática busca ampliar a participação da comunidade escolar, não reforçar a disciplina como dominação.
- D)na adoção do uso dos uniformes.
Certa, porque o uniforme padroniza os corpos, controla a aparência e funciona como prática de disciplina e conformação ao espaço escolar.
- E)na constituição dos conselhos escolares.
Errada, porque os conselhos escolares são instrumentos de participação e controle social da gestão, não de submissão disciplinar.
Gabarito: D
A questão trabalha a ideia de disciplina escolar como mecanismo de poder. Em chave sociológica, a sala de aula não é neutra: a organização do espaço, do tempo, das falas e dos corpos ajuda a produzir obediência, hierarquia e autocontrole. É a lógica do poder disciplinar, muito associada a Michel Foucault, em que a escola não apenas ensina conteúdos, mas também molda comportamentos. Quando o enunciado fala em “introjeção do poder disciplinar”, está apontando para práticas que fazem o aluno internalizar regras e limites, muitas vezes sem perceber. Isso aparece em rotinas de vigilância, controle do uniforme, postura, fila, silêncio e padronização das condutas. A escola, nesse modelo, ensina a conhecer seu lugar social e a se ajustar à ordem instituída. Por isso, o gabarito é a letra D. O uso de uniformes é um exemplo clássico de padronização e controle dos corpos, reduzindo diferenças visíveis e reforçando a disciplina coletiva. Não é só uma roupa: é também um sinal de pertencimento e de submissão a uma organização escolar que regula a aparência e o comportamento. As outras alternativas apontam para práticas mais participativas e democráticas, que caminham na direção oposta. Debates, trabalho em grupo, gestão democrática e conselhos escolares fortalecem autonomia, diálogo e participação, não a lógica de dominação disciplinar descrita no texto.