Um dos pontos centrais do pensamento de Paulo Freire é repensar a relação entre professor e aluno. Sobre o tema, leia o fragmento a seguir. Se o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2011. Assinale a opção que reflete corretamente o que se afirma no fragmento acima.
- A)A educação democrática exige uma inversão da hierarquia tradicional da relação pedagógica.
Errada, porque Freire critica a hierarquia autoritária, mas não fala em inverter a hierarquia de forma simplista; ele defende diálogo e respeito mútuo na relação pedagógica.
- B)O professor deve fingir estar no mesmo nível dos alunos para facilitar a comunicação das matérias.
Errada, porque o professor não deve fingir igualdade nem encenar proximidade, e sim construir uma relação dialógica autêntica e respeitosa.
- C)A capacidade de ouvir e a possibilidade de ensinar situam-se numa relação de interdependência.
Certa, porque no pensamento de Freire ouvir e ensinar se relacionam diretamente: quem ensina precisa escutar para dialogar e ensinar melhor.
- D)O aluno é a instância que porta a verdade na relação pedagógica e por isso deve ser ouvido.
Errada, porque Freire não coloca o aluno como portador da verdade, mas como sujeito ativo do processo de construção do conhecimento.
- E)A postura solidária implica que a figura do professor seja abolida em favor do diálogo entre iguais.
Errada, porque o diálogo entre iguais não elimina o papel do professor; Freire defende a superação do autoritarismo, não a abolição da docência.
Gabarito: C
Paulo Freire critica a educação em que o professor fala sozinho e o aluno só recebe, como se aprender fosse uma via de mão única. Para ele, ensinar não é despejar conteúdo, mas construir diálogo, e isso exige escuta verdadeira. Ou seja: quem ensina também aprende ao ouvir, e quem aprende também participa ativamente da relação pedagógica. No trecho da Pedagogia da Autonomia, Freire diz que não é falando "de cima para baixo" que se aprende a escutar, mas é escutando que se aprende a falar com os outros. A ideia central é a relação de interdependência entre ouvir e ensinar: o professor não perde sua função, mas abandona a postura autoritária e assume uma prática dialógica, democrática e solidária. Por isso, a alternativa C está correta: a capacidade de ouvir e a possibilidade de ensinar caminham juntas. Em Freire, ensinar não combina com autoritarismo nem com monólogo; combina com diálogo, respeito ao saber do educando e abertura para a troca. Em termos doutrinários, isso se liga à pedagogia problematizadora, oposta à chamada educação bancária. Em prova, vale lembrar: Freire não defende que professor e aluno sejam a mesma coisa, nem que o professor desapareça. Ele defende uma relação horizontalizada no diálogo, sem perder a responsabilidade pedagógica de quem ensina.