Leia o texto a seguir sobre um aspecto por vezes negligenciado na relação entre ensino e aprendizagem. Ensinar é também estimular o desejo de saber. Só se pode desejar saber ler, calcular de cabeça, falar alemão ou compreender o ciclo da água, quando se concebem esses conhecimentos e seus usos. De um ponto de vista cognitivo, uma criança de quatro anos não compreende exatamente o que significa ler, mas, às vezes, já tem uma representação da leitura e dos poderes que ela confere. Uma relação com o saber depende sempre de uma representação das práticas sociais das quais ele é revestido. Adaptado de PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. Com base no texto, assinale a afirmativa que identifica corretamente a posição defendida pela autora.
- A)A exposição contínua a informações é o fator decisivo para despertar o interesse pelo aprendizado.
Errada, porque a simples exposição contínua a informações não garante interesse nem desejo de aprender.
- B)O aprendiz pode desejar o conhecimento ao perceber nele um sentido reconhecível na própria realidade.
Certa, porque o aluno pode desejar aprender quando percebe um sentido social e pessoal no conhecimento.
- C)A familiaridade adquirida com um determinado saber leva à percepção de sua importância na vida cotidiana.
Errada, porque a familiaridade com o saber não é a causa principal; o texto destaca a representação e o sentido social do conhecimento.
- D)O desejo de aprender surge de forma natural a partir do amadurecimento das capacidades cognitivas.
Errada, porque o texto não diz que o desejo de aprender surge naturalmente do amadurecimento cognitivo.
- E)A motivação para aprender ocorre quando o que se ensina já faz parte do repertório de conhecimentos do aluno.
Errada, porque o conhecimento não precisa já fazer parte do repertório do aluno; ele pode ser desejado justamente por ainda não ser dominado.
Gabarito: B
O texto trabalha uma ideia muito importante em Pedagogia: ninguém aprende bem só porque foi exposto ao conteúdo. Para ensinar de verdade, é preciso também criar desejo, sentido e valor social para o que está sendo aprendido. Em outras palavras, o aluno precisa enxergar para que aquilo serve, como aquilo aparece na vida real e por que vale a pena se envolver com isso. É exatamente por isso que a alternativa B está correta. Ela diz que o aprendiz pode desejar o conhecimento ao perceber nele um sentido reconhecível na própria realidade. Isso bate com o trecho de Perrenoud: o desejo de saber nasce quando a criança consegue formar uma representação daquele conhecimento e dos usos sociais que ele tem. Antes de entender tudo tecnicamente, ela já pode perceber que ler, por exemplo, abre portas e muda sua relação com o mundo. Essa é uma visão bem próxima das teorias que valorizam a relação entre saber escolar e práticas sociais, muito usadas na didática contemporânea. O conhecimento não é só um bloco abstrato a ser entregue; ele ganha força quando faz sentido para quem aprende. Ensinar, então, não é apenas transmitir conteúdo, mas também ajudar o aluno a querer aprender. Por isso, a chave da questão não está no amadurecimento puro e simples nem na repetição de informações, e sim na construção de significado. Quando o conteúdo conversa com a realidade do estudante, a aprendizagem deixa de ser uma obrigação vazia e vira uma possibilidade interessante.