Em O Sagrado e o Profano (1956), o historiador das religiões Mircea Eliade sugere usar o termo hierofania para referir-se ao sagrado: O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. ELIADE, M. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992, p. 12. A partir do trecho, é correto deduzir que, para Mircea Eliade,
- A)o sagrado e o profano têm a mesma natureza, uma vez que um galho de árvore ou a lua podem ser sagrados.
Errada: em Eliade, sagrado e profano não têm a mesma natureza, porque a hierofania marca justamente a diferença entre ambos.
- B)apenas experiências religiosas mais complexas podem ser definidas como autênticas hierofanias.
Errada: para Eliade, a hierofania não se limita a experiências religiosas complexas, pois qualquer manifestação do sagrado pode ser uma hierofania.
- C)a secularização da modernidade impede que o sagrado se manifeste, eliminando a hierofania.
Errada: a modernidade pode alterar a vivência do sagrado, mas Eliade não afirma que ela elimina totalmente a hierofania.
- D)a história das religiões é constituída por hierofanias, pelas diversas manifestações de realidades sagradas.
Certa: a história das religiões, para Eliade, é composta por múltiplas hierofanias, isto é, manifestações do sagrado.
- E)por meio da hierofania, o homo religiosus recusa o plano das coisas profanas e dedica-se ao plano salvífico.
Errada: a hierofania mostra o sagrado no mundo profano, mas não significa necessariamente uma recusa completa do plano profano nem uma leitura salvífica nesses termos.
Gabarito: D
Mircea Eliade usa o termo hierofania para nomear o momento em que o sagrado se manifesta no mundo, isto é, quando algo comum - uma pedra, uma árvore, uma montanha, um rito - passa a revelar uma realidade sagrada. A ideia central não é que o objeto vire “mágico” por si só, mas que ele se torne um sinal ou manifestação do sagrado para o homem religioso. É por isso que, em Eliade, o sagrado aparece em múltiplas formas e situações da experiência humana. Na visão do autor, a história das religiões pode ser lida justamente como um conjunto de hierofanias, ou seja, de diversas formas pelas quais o sagrado se mostra no tempo e no espaço. Isso inclui manifestações simples ou complexas, antigas ou modernas, sempre como rupturas da rotina profana. Então, quando a questão fala em “diversas manifestações de realidades sagradas”, está resumindo bem a tese de Eliade. A alternativa D acerta porque não reduz a experiência religiosa a um único tipo de manifestação e nem diz que o sagrado desaparece no mundo moderno. Ela identifica o ponto-chave do texto: a história das religiões é feita dessas manifestações do sagrado. Em linguagem de prova, hierofania = manifestação do sagrado. Simples assim, sem drama cósmico demais. Como apoio doutrinário, essa é a leitura clássica de Eliade em O Sagrado e o Profano, muito usada em questões de Ciências da Religião e temas pedagógicos ligados à cultura e à religiosidade.