A educação deve se organizar de tal forma que nenhum dos poderes tangíveis da sociedade seja capaz de colocá-la a seu serviço. Professores e estudantes devem possuir os meios políticos, legais e financeiros necessários para conter a influência do Estado e da família e abrir espaços nos quais possam lidar experimentalmente com a tensão fundamental da educação sob a democracia: o conflito entre preparar as pessoas para agir sob a égide dos arranjos e pressupostos vigentes e equipá-los para desafiar esses pressupostos e arranjos. MANGABEIRA UNGER, Roberto. A economia do conhecimento. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. Segundo o autor, a educação tem um papel determinado na formação dos indivíduos. Assinale a opção que indica corretamente esse papel.
- A)Promover a autonomia econômica de professores e estudantes, visando melhorar suas condições de vida dentro da estrutura social existente.
Errada, porque reduz o papel da educação à melhoria das condições de vida dentro da estrutura existente, sem incluir a dimensão crítica e transformadora.
- B)Resistir à influência do Estado na definição dos valores que orientam a formação individual, preservando o papel da família nesse processo.
Errada, porque coloca a família como centro intocável e trata a educação apenas como resistência ao Estado, o que não expressa a ideia ampla do texto.
- C)Desconstruir práticas pedagógicas que limitem a capacidade dos estudantes de se adaptarem satisfatoriamente à ordem social vigente.
Errada, porque fala em adaptação satisfatória à ordem social vigente, enquanto o autor defende também a capacidade de questionar e desafiar essa ordem.
- D)Preparar os indivíduos para o equilíbrio crítico entre a reprodução das estruturas sociais existentes e a capacidade de transformá-las.
Certa, porque expressa exatamente a formação para conciliar a reprodução de estruturas sociais com a possibilidade de criticá-las e transformá-las.
- E)Capacitar as pessoas para a preservação dos valores e estruturas sociais conquistados por meio dos instrumentos da democracia.
Errada, porque prioriza a preservação dos valores e estruturas já conquistados, e o texto inclui justamente a abertura para contestá-los.
Gabarito: D
O texto de Roberto Unger trata da educação em uma democracia como um espaço de tensão: ela não deve servir apenas para adaptar a pessoa ao mundo como ele está, mas também para dar ferramentas para questioná-lo e transformá-lo. Em outras palavras, a escola não pode ser só uma fábrica de conformismo. Ela precisa formar indivíduos capazes de ler a realidade, aceitar o que faz sentido e, ao mesmo tempo, contestar o que for injusto ou ultrapassado. Esse raciocínio conversa muito com uma visão crítica da educação, em que o processo educativo não se limita a reproduzir a ordem social vigente. Autores como Paulo Freire também ajudam a entender essa ideia, ao defender uma formação voltada para a consciência crítica e para a leitura do mundo, e não apenas para a adaptação mecânica à realidade. Aqui, a educação aparece como prática de liberdade, não como simples ajuste ao que já existe. Por isso, a alternativa D é a correta: o autor quer uma educação que prepare os indivíduos para um equilíbrio crítico entre reproduzir certas estruturas sociais e ter capacidade de transformá-las. Repare no verbo-chave: equilíbrio. Não é revolução automática, nem obediência cega. É formação para agir com lucidez dentro da democracia. As demais opções escorregam porque puxam a educação para um lado só, seja autonomia econômica, preservação da família, adaptação à ordem vigente ou manutenção pura e simples dos valores já conquistados. O texto pede algo mais sofisticado: formar pessoas para viver no presente sem abrir mão de desafiar esse presente quando necessário.