Leia o trecho a seguir. Ser criança no Estado do Pará, nos diferentes municípios das regiões do Araguaia, Baixo Amazonas, Carajás, Guajará, Guamá, Lago de Tucuruí, Marajó, Rio Caeté, Rio Capim, Tapajós, Tocantins, Xingu, está longe de ser uma experiência uníssona. Essas experiências estão relacionadas com diferentes infâncias vividas em distintos espaços históricos e geográficos, no campo e na cidade, onde habitam uma enorme diversidade de povos e grupos sociais. Alguns desses povos e grupos sociais têm suas origens e ancestralidades fortemente ancoradas em territórios que atualmente configuram o Estado do Pará. Já outros, têm suas raízes firmadas a partir de fluxos migratórios para o estado, inseridos em distintos contextos socioeconômicos. Adaptado de Ciências Humanas no Ensino Fundamental - ANOS INICIAIS. Secretaria de Estado de Educação/SEDUC-PA. Pará, 2024, p. 9. Considerando o trecho, sobre a contribuição pedagógica da área de Ciências Humanas para compreensão do processo de formação da sociedade paraense e de sua diversidade cultural, analise as afirmativas a seguir. I. O ensino das Ciências Humanas permite transmitir conhecimentos universais centrados no progresso e na evolução ordenada da sociedade e da economia paraenses, contribuindo para fortalecer uma identidade estadual. II. As estratégias de investigação na área de Ciências Humanas favorecem o reconhecimento da diversidade étnico-cultural da população paraense e das especificidades territoriais, econômicas e ambientais de cada uma das regiões do Pará. III. A aprendizagem prevista na área de Ciências Humanas habilita identificar os principais desafios sociais e ambientais amazônicos na atualidade, compreendendo como estes colocam em risco a sociobiodiversidade local e afetam o bemestar das populações locais. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A opção sustenta que Ciências Humanas deve transmitir verdades universais e uma narrativa linear de progresso da sociedade e da economia paraenses, como se houvesse uma evolução ordenada única. Essa formulação é incompatível com a abordagem crítica e histórico-geográfica da área, que parte da pluralidade de tempos, territórios e grupos sociais, em vez de um modelo único de desenvolvimento. Por isso, a identidade estadual não se fortalece por uma leitura homogênea e evolucionista, mas pelo reconhecimento da diversidade.
- B)I e II, apenas.
Aqui se combina a tese de uma evolução linear e universal do Pará com a ideia de que a investigação em Ciências Humanas revela a diversidade étnico-cultural e territorial do estado. A segunda parte está adequada, porque a área trabalha com pesquisa, comparação de contextos e leitura das diferenças regionais; já a primeira retoma um viés progressivista e homogenizador, que contraria essa mesma abordagem. Assim, a presença do item I compromete a alternativa.
- C)I e III, apenas.
A alternativa junta a ideia de um progresso ordenado e universal da sociedade paraense com a compreensão dos desafios sociais e ambientais amazônicos contemporâneos. O item III está bem formulado, porque as Ciências Humanas ajudam a analisar conflitos socioambientais, sociobiodiversidade e impactos sobre o bem-estar das populações locais; mas o item I distorce o sentido da área ao reduzi-la a uma narrativa linear de evolução. Por isso, a combinação não se sustenta.
- D)II e III, apenas.
A opção reúne as afirmativas que dialogam com o trecho: a investigação em Ciências Humanas permite reconhecer a diversidade étnico-cultural e as diferenças territoriais, econômicas e ambientais entre as regiões do Pará, e também analisar os desafios sociais e ambientais amazônicos que afetam a sociobiodiversidade e a vida das populações. Esse é justamente o enfoque da área na BNCC e em materiais curriculares contemporâneos: leitura crítica do espaço, das relações sociedade-natureza e da pluralidade de experiências históricas. Portanto, a combinação indicada está adequada.
- E)I, II e III.
Esta alternativa inclui as três afirmativas, mas a presença do item I torna o conjunto inadequado. Enquanto II e III expressam uma visão investigativa, contextualizada e crítica da área, o item I aposta numa narrativa universalista e evolutiva da sociedade paraense, que não corresponde ao tratamento pedagógico das Ciências Humanas. Assim, a reunião de todas as proposições não pode ser aceita.
Gabarito: D
A área de Ciências Humanas, nos anos iniciais, não serve para decorar uma história única e “arrumadinha” da sociedade. Ela ajuda você a ler o mundo social com mais critério, percebendo que um mesmo estado pode reunir muitas infâncias, muitos territórios e muitas formas de viver. Por isso, a referência ao Pará faz sentido: a formação da sociedade paraense envolve povos originários, populações tradicionais, migrações, diferenças entre campo e cidade e realidades regionais bem distintas. A BNCC e os referenciais curriculares da área valorizam justamente esse olhar investigativo, crítico e contextualizado. Em vez de tratar a sociedade como uma linha reta de progresso, a Ciências Humanas trabalha com diversidade, temporalidades, territorialidades e relações entre natureza e sociedade. Isso ajuda a entender por que as regiões paraenses têm especificidades culturais, econômicas, ambientais e históricas próprias. A afirmativa II está correta porque aponta esse reconhecimento da diversidade étnico-cultural e das diferenças territoriais do Pará. A afirmativa III também está correta, pois a aprendizagem em Ciências Humanas permite identificar problemas sociais e ambientais da Amazônia, como desmatamento, conflitos territoriais e impactos sobre a sociobiodiversidade e o bem-estar das populações locais. Já a afirmativa I escorrega porque fala em conhecimentos universais centrados no progresso e na evolução ordenada, uma visão mais linear e homogênea, que não combina com a abordagem crítica e plural da área. Em prova da FGV, quando aparece esse tipo de discurso de “progresso ordenado”, acenda a luz amarela: normalmente é a alternativa tentando vender simplicidade onde o conteúdo pede diversidade e complexidade.