O homem pode ser ou treinado, disciplinado, instruído, mecanicamente, ou ser em verdade ilustrado. Treinam-se os cães e os cavalos; e também os homens podem ser treinados. (...) Entretanto, não é suficiente treinar as crianças; urge que aprendam a pensar. KANT, I. Sobre a pedagogia. Piracicaba: Editora Unimep, 1999. O filósofo Immanuel Kant deu lugar central à educação do homem em seu pensamento. No trecho acima, ele expõe
- A)a contrariedade em relação às práticas de incutir hábitos externos nas crianças, algo deletério para a formação.
Errada, porque Kant não rejeita toda disciplina ou hábito, mas critica a redução da educação a práticas externas sem formação da autonomia.
- B)a distinção entre o bom treinamento e a mera instrução, que é apenas uma forma mecânica de aprendizado.
Errada, porque o trecho vai além da diferença entre treinamento e instrução, enfatizando principalmente o pensar autônomo.
- C)a impossibilidade de oferecer treinamento a seres humanos devido às diferenças para com os animais.
Errada, porque Kant não diz que humanos não podem ser treinados; ele afirma que o treinamento é insuficiente para educar plenamente.
- D)a diferença entre a absorção mecânica de conhecimentos e o uso propriamente humano da razão.
Certa, porque o texto contrapõe aprendizado mecânico e o verdadeiro uso humano da razão, que é pensar por conta própria.
- E)a identificação entre aprender a pensar e ter hábitos e conhecimentos incutidos na memória.
Errada, porque Kant não identifica pensar com mera memorização de hábitos e conteúdos; ele separa isso da formação racional.
Gabarito: D
Kant distingue dois modos de educar: um mais externo e mecânico, ligado a treino, disciplina e repetição, e outro mais elevado, ligado à formação da autonomia do pensamento. No trecho, ele está dizendo que não basta a criança aprender por hábito, memória ou adestramento. Isso pode até organizar o comportamento, mas ainda não forma verdadeiramente a pessoa. Para Kant, educar é ajudar o ser humano a sair da mera obediência automática e chegar ao uso da razão. Em outras palavras: não é suficiente “fazer decorar” ou “fazer repetir”; é preciso ensinar a pensar por conta própria. Essa ideia conversa com a tradição iluminista, na qual a razão é o centro da formação humana. Por isso, a chave do enunciado está na oposição entre absorção mecânica de conhecimentos e o uso propriamente humano da razão. O homem não deve ser tratado como um animal a ser apenas treinado, mas como alguém capaz de julgar, refletir e se orientar autonomamente. Assim, o gabarito D está correto porque resume exatamente a crítica kantiana ao ensino meramente mecânico e ressalta a finalidade maior da educação: formar sujeitos capazes de pensar. Em concurso, sempre desconfie quando a questão tenta reduzir educação a treino, repetição ou mera instrução.