Dom e Bruno: Amazônia, sua linda! O indigenista Bruno Araújo Pereira, 41 anos, paraibano de nascimento, aparece em um vídeo. A cena é paradisíaca. Cercado por árvores no meio da floresta, ele está entoando um canto em katukina, língua dos Kanamari: — Wahanararai wahanararai, marinawah kinadik marinawah kinadik; tabarinih hidya hidyanih, hidja hidjanih A câmera capta sua imagem de perfil, sentado no chão sobre um tapete de folhas, cadenciando a música com o pé esquerdo. Parece estar só. Não está. Gira seu rosto à direita e, agora de frente, abre um sorriso alegre interagindo com os indígenas com quem ele canta e que, fora do enquadramento, não aparecem no vídeo. Escutamos suas vozes acompanhando o contracanto coletivo, afinado pela cumplicidade construída na partilha das experiências de luta. O que cantam eles no vídeo em um canal de TV? As palavras falam literalmente sobre o modo como a arara alimenta seus filhotes, um hino em defesa da floresta e dos povos originários. FREIRE, José Ribamar Bessa. Dom e Bruno: Amazônia, sua linda! Disponível em:https://www.taquiprati.com.br/cronica/1645-dom-e-bruno-amazonia-sua-linda . Acesso em 9 mar. 2023. Adaptado. Tendo em vista o texto e as musicalidades decoloniais, assinale a afirmativa correta.
- A)Os contracantos coletivos são acessórios ao canto principal.
Errada, porque o contracanto coletivo não é acessório: ele integra a própria construção musical e simbólica da manifestação.
- B)Os clipes musicais presentes nas redes sociais são devocionais.
Errada, porque os clipes em redes sociais não são, por natureza, devocionais; aqui a canção tem sentido cultural e político, não religioso nesse sentido.
- C)Os hinos indígenas são idênticos às músicas da cultura gospel.
Errada, porque canções indígenas não são idênticas às músicas gospel, já que pertencem a matrizes culturais e finalidades distintas.
- D)As canções indígenas são exemplos de tradução intercultural.
Certa, porque a canção indígena é apresentada como expressão que circula entre culturas e ganha leitura em outro contexto, caracterizando tradução intercultural.
- E)As músicas são documentos históricos do contato entre indígenas e mídia.
Errada, porque o foco não é usar a música como registro histórico do contato com a mídia, mas como expressão cultural com sentido próprio e traduzível entre mundos.
Gabarito: D
A questão mistura educação, cultura e leitura crítica de manifestações artísticas. Em temas de Legislação da Educação, especialmente quando a FGV fala em diversidade, interculturalidade e respeito aos povos indígenas, ela costuma cobrar a ideia de que a escola não deve tratar essas expressões como enfeite folclórico, mas como produção cultural com sentido próprio. Isso conversa com a Constituição Federal de 1988, art. 231, e com a LDB (Lei 9.394/1996), que valorizam o respeito à diversidade cultural e às matrizes indígenas e afro-brasileiras, além da educação escolar indígena com suas línguas, memórias e processos próprios de aprendizagem. No enunciado, o canto em katukina não aparece como cópia de uma música ocidental, nem como algo meramente decorativo. Ele é apresentado dentro de uma experiência viva, ligada à floresta, à luta e à convivência entre sujeitos de culturas diferentes. É exatamente aí que entra a lógica da tradução intercultural: uma expressão cultural circula, é narrada em outro espaço midiático e ganha novo público sem perder sua raiz de sentido. Não é “a mesma coisa” que a cultura dominante, nem precisa ser reduzida a versão simplificada para caber no repertório da mídia. Por isso, o gabarito D está correto. As canções indígenas, nesse contexto, funcionam como exemplo de tradução intercultural porque permitem passagem de significados entre mundos culturais distintos, preservando identidades e produzindo diálogo. A ideia é muito próxima do que a legislação educacional brasileira defende ao reconhecer a pluralidade cultural do país e a necessidade de uma educação que respeite e valorize os conhecimentos dos povos originários. Em resumo: a FGV quer que você perceba que não se trata de julgar a música indígena por uma régua religiosa, midiática ou folclorizante, mas de entender seu papel como linguagem cultural situada. Quando a questão fala em musicalidades decoloniais, ela está puxando você para a noção de intercâmbio entre culturas com respeito à diferença, e não para uma comparação apressada com cânones da cultura hegemônica.