Leia com atenção os dois parágrafos a seguir. “À parte as discussões conceituais, no âmbito das ações dirigidas e qualificadas explicitamente para esse tipo de formação, vê-se que, sob esse rótulo, se abrigam desde cursos de extensão de natureza bem diversificada até cursos de formação que outorgam diplomas profissionais, seja em nível médio, seja em nível superior. Muitos desses cursos se associam a processos de educação a distância, que vão do formato totalmente virtual, via internet, até o semipresencial com materiais impressos” (GATTI, 2008). “A pergunta que se coloca é: não seria melhor investir mais orçamento público para a ampliação de vagas em instituições públicas para formar licenciados e investir na qualificação desses cursos, em termos de projeto, de docentes, de infraestrutura, deixando para a educação continuada realmente os aperfeiçoamentos ou especializações? Parece-nos que melhorar substantivamente, com insumos adequados e inovações, a formação básica dos professores para todos os níveis e modalidades seria uma política mais condizente para a melhor qualificação dos trabalhadores nas redes de ensino, e para propiciar aos alunos dessas redes os conhecimentos importantes para sua realização pessoal e no trabalho e sua contribuição para uma coletividade mais integrada” (GATTI, 2008). Gatti inicia seu artigo com uma identificação do que era oferecido à época como educação/formação continuada de professores e termina o texto com um questionamento sobre o investimento nessa formação. Marque a opção que contém o principal questionamento da autora com referência à oferta de formação continuada aos profissionais do ensino.
- A)A autora se coloca contrária à oferta de cursos de formação continuada totalmente virtuais.
Errada, porque o texto não faz uma crítica específica aos cursos totalmente virtuais, e sim à estrutura geral da oferta de formação continuada.
- B)A autora se coloca contrária à oferta de cursos de formação continuada semipresenciais.
Errada, pois a autora também não se opõe aos cursos semipresenciais em si; a questão é a prioridade dada a esse tipo de oferta em vez da formação inicial.
- C)A autora considera que cursos de extensão não devem ser oferecidos em programas de formação continuada.
Errada, porque a autora não exclui cursos de extensão da formação continuada, ela apenas questiona o sentido e a finalidade do investimento público nessa lógica.
- D)A autora considera que parte dos investimentos em formação continuada deveria ser empregada para a ampliação de vagas e a qualificação dos cursos de licenciatura em instituições públicas.
Certa, porque a autora defende que os recursos deveriam priorizar a ampliação e a qualificação da formação inicial em licenciaturas públicas, deixando a continuada para aperfeiçoamentos.
- E)A autora se coloca contra a oferta de cursos de aperfeiçoamento e especialização dentro de programas de formação continuada de professores.
Errada, pois o texto não condena cursos de aperfeiçoamento e especialização; ao contrário, ela os vê como parte legítima da educação continuada, desde que não substituam a formação básica.
Gabarito: D
A questão gira em torno de um debate muito comum na formação docente: o que fazer com o orçamento público quando se fala em formação continuada. No texto de Gatti, a crítica não é simplesmente aos cursos em si, mas à lógica de ampliar uma oferta muito heterogênea de “formação continuada” sem antes fortalecer a base da formação inicial dos professores. Em outras palavras, antes de encher o cardápio de cursos, ela pergunta se não seria mais inteligente investir na licenciatura, com mais vagas, melhor projeto pedagógico, docentes qualificados e boa infraestrutura. Perceba a ideia central: educação continuada é importante, mas não deveria funcionar como substituto de uma formação inicial sólida. A autora sugere que os recursos públicos sejam priorizados para qualificar os cursos de licenciatura nas instituições públicas, deixando os cursos continuados para aperfeiçoamentos e especializações mais pontuais. Isso conversa com a lógica da LDB, que valoriza a formação de docentes em nível superior para a educação básica e a qualificação permanente do magistério, mas sem transformar a formação continuada em uma solução-tampão para falhas da formação inicial. Por isso o gabarito é a letra D. Ela traduz exatamente o questionamento da autora: parte do investimento em formação continuada deveria ser redirecionada para ampliar vagas e qualificar os cursos de licenciatura em instituições públicas. É o tipo de resposta que não cai na armadilha do detalhe e pega o movimento do texto: menos maquiagem e mais base. Em concurso, isso costuma aparecer como crítica à política de “remendos formativos”.