Além dos indígenas na cidade, existem os indígenas da cidade. Os primeiros são aqueles que vieram das aldeias e trouxeram com eles todas as experiências e vivências étnicas, enquanto os segundos são os “filhos e filhas da cidade, cuja grande maioria desconhecendo o interior, não falam a língua dos seus ancestrais, não compartilham os costumes de seus parentes e conhecem os mesmos apenas por meio das narrativas e da experiência dos seus irmãos mais velhos” (BERNAL, 2010, p. 189) Diversamente do que afirma Bernal, os resultados deste estudo apontam que os entrevistados-colaboradores, sejam eles indígenas na cidade ou indígenas da cidade, conhecem e usam a língua Sateré-mawé, com diferentes graus de bilinguismo, bem como reafirmam seus pertencimentos étnicos e demonstram conhecer as histórias e a cultura Sateré-mawé. ESTÁCIO, Marcos A. F. Juventudes indígenas em espaços urbanos amazonenses: narrativas Sateré-Mawé. Tese. UFRJ: Rio de Janeiro, 2019. De acordo com o texto, assinale a afirmativa correta.
- A)Tratando-se especificamente da experiência de indígenas da cidade, há estudos suficientes sobre a temática, inclusive nas instâncias governamentais.
Errada, porque o texto não fala em suficiente apoio governamental nem em estudos consolidados sobre o tema; pelo contrário, ele discute a permanência da identidade indígena na cidade.
- B)Ao contrário de caracterizar a vida dos indígenas na cidade pelas rupturas e dificuldades, é possível ver uma positividade transgressora no ato de viver na cidade, especialmente pela transformação que os indígenas promovem no lugar.
Errada, porque a ideia central do texto não é uma 'positividade transgressora' da vida urbana, mas a continuidade do pertencimento indígena mesmo no espaço citadino.
- C)Há um processo de integração sem assimilação, ou seja, que os indígenas vão para a cidade, mas não abrem mão de continuarem sendo indígenas.
Certa, pois expressa a integração sem assimilação: os indígenas podem ir para a cidade sem abrir mão de continuar sendo indígenas.
- D)O fenômeno da migração dos indígenas para as cidades revela o impacto que a cidade produz na vivência do indígena que nela passa a lastrear suas referências culturais, visões de mundo e práticas sociais.
Errada, porque a cidade não aparece como lugar que apaga as referências culturais indígenas, já que o texto destaca a manutenção da língua, da história e do pertencimento.
- E)Antes dos deslocamentos para a cidade, os indígenas já marcavam presença nos deslocamentos nas áreas urbanas, motivados por regras que se distanciam das motivações econômicas atuais.
Errada, porque o texto não trata de motivações históricas dos deslocamentos nem de uma presença urbana anterior por outras regras; o foco é a identidade indígena na cidade hoje.
Gabarito: C
A questão trabalha uma ideia importante dos estudos sobre povos indígenas em contexto urbano: a ida para a cidade não apaga automaticamente a identidade indígena. Ou seja, sair da aldeia ou nascer na cidade não significa, por si só, romper com a língua, a memória e o pertencimento étnico. Muitas vezes, a vivência urbana convive com a manutenção de vínculos culturais, familiares e linguísticos. No texto, o autor mostra justamente isso ao contrariar a visão de que os indígenas urbanos estariam afastados de sua cultura. Os entrevistados conhecem e usam a língua Sateré-mawé, com diferentes graus de bilinguismo, reafirmam seus pertencimentos étnicos e conhecem histórias e práticas da cultura do povo. Isso desmonta a ideia de assimilação total pela cidade. Por isso, a alternativa correta é a C: há um processo de integração sem assimilação. Em outras palavras, o indígena pode circular, estudar e viver na cidade sem deixar de ser indígena. A cidade entra na vida dele, mas não apaga sua identidade. É a presença indígena recriando a cidade, e não apenas sendo absorvida por ela. Esse entendimento dialoga com a Constituição Federal de 1988, que reconhece aos povos indígenas sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições. Na prática, a lógica do texto é: mudança de espaço não é sinônimo de perda cultural.